Na carona de Gonçalo Cadilhe

planisferiopessoal

Semana passada eu terminei, muito contrariado, um livro que estava lendo a conta-gotas: Planisfério Pessoal, do escritor-viajante português Gonçalo Cadilhe.

Foi um presente da Isabel O. que eu demorei para abrir, mas que depois não queria mais fechar.

Em 2003, Cadilhe empreendeu uma volta ao mundo sem usar avião. (Ou quase: em dois pequenos trechos teve que voar.) Transmitia suas crónicas  semanalmente ao Expresso. O livro é uma antologia dos melhores momentos, selecionados pelo autor.

Passei o livro inteiro morrendo de inveja — tanto da viagem quanto do poder do texto do cara.

Não sei se posso, mas vou transcrever um capítulo quase inteiro, em que o Gonçalo, a bordo de um barco no Laos, resume o que é viajar no século 21.

Uma balsa no Mekong
(…) O meu guia de bolso menciona a possibilidade de apanhar uma balsa de madeira em Huay Xai e navegar durante um par de dias o rio Mekong até Luang Prabang, a antiga capital do Laos. Depois das maratonas rodoviárias dos últimos dias, irá saber bem uma mudança de meio de transporte. Um viajante que segue no sentido contrário confirma esta possibilidade. Sugere: “Não apanhes as lanchas rápidas. São caras, perigosas e nunca param. São para turistas.”

Não, eu quero seguir os ritmos lentos da vida do Laos, deslizar suavemente rio abaixo, rodear-me de costumes, palavras e comidas que não conheço e não entendo. Perder-me no país profundo e intacto. Mais sorrisos, menos solavancos.

Sorrio quando avisto a balsa de madeira ancorada no porto fluvial. Penso: “Se o que eu queria era uma experiência genuína, navegar ‘naquilo’ é o mais genuíno que há.” Deixo de sorrir quando entro na balsa de madeira. Penso: “Enganei-me. Isto deve ser a lancha rápida.” A dúvida não surge pela velocidade da embarcação, mas pelos passageiros que viajam nela: somos todos turistas.

Olho discretamente para os meus companheiros de navegação. O inglês é a língua franca a bordo, com algumas exclamações em italiano, francês, escandinavo, japonês. A carga é exclusivamente composta de mochilas, mosquiteiros, sacos-camas, tripés de vídeo, três guitarras, um par de congas. Os anéis no nariz e na língua, os cabelos entrelaçados, as roupas largas de cores psicadélicas, a garrafa de água sempre à mão, o CD com Bob Marley, a sandália de marca, o bloco de notas em papel reciclável, o guia Lonely Planet e o cigarro de marijuana caracterizam este turismo de massa alternativo que se sente tão diverso e que me parece tão previsível.

Resigno-me. Depois da esplêndida solidão das travessias oceânicas, das pequenas cidades pesqueiras da Nova Zelândia, do inverno gelado da China, agora mergulho nos fluxos turísticos do Sudeste Asiático. O que é engraçado no meio disto tudo é que, contra toda a evidência, todos nós mantemos intacta a percepção de estar a viver uma aventura inédita, a descobrir novas pistas exóticas, a viajar por onde quase ninguém viajou antes de nós. Aventura?

A verdadeira aventura nestes tempos que correm encontra-se em casa. Aventura é assumir um compromisso para a vida com a pessoa que se ama, meter a assinatura na hipoteca de um apartamento que nos põe a corda ao pescoço para os próximos 30 anos, conduzir nas avenidas portuguesas ao sábado à noite. Navegar na balsa de madeira do Mekong no profundo Laos?

Sim, a aventura acontece quando encontramos uma zona de remoinhos e rápidos. A embarcação ginga e geme, os escandinavos trocam olhares nervosos com os italianos, os israelitas com os japoneses. Observo os dois monges budistas e as três camponesas que viajam connosco. São os únicos clientes habituais da balsa. Faço como nos aviões quando há turbulência: observo as hospedeiras. Se elas parecem preocupadas, começo a preocupar-me. Os monges estão beatos e serenos como se estivéssemos ainda ancorados. Resignação budista? Ou confiança na balsa?

Comento com os meus companheiros de assento, um suíço e um americano: “Se isto vai ao fundo, seremos famosos — faremos a primeira página dos jornais de vários países ocidentais.” É uma piada, mas eles não acham muita graça. Ultrapassa-nos uma das lanchas rápidas a uma velocidade louca. Reparo que não viaja um único turista a bordo.

Não encontrei nenhum endereço habitual online de Gonçalo Cadilhe. Mas você pode ler uma boa entrevista dele aqui — ou ainda se encaixar na viagem à Namíbia que ele vai guiar para a operadora portuguesa Nomad. (Outro grande escritor-viajante português, o Tiago Salazar, vai guiar uma a Cuba.)

28 comentários

Olá!

É a primeira vez que visito este blog. E, resolvi escrever, pois sou um “fã” do Gonçalo Cadilhe. Todos os livros dele são apaixonantes e levam-nos a viajar pelo mundo, mesmo que no final de cada capítulo continuemos sentados nos nossos sofás… e com uma vontade incrível de partir (aquela vontade louca!). Todos os livros são extraordinários contos de viagens. Para quem deseja conhecer o que está do outro lado da colina, os seus livros podem ser detonadores de vontade definitivos. Tive um amigo que disse “Não os posso ler, são perigosos, e eu tenho família…” rs

Quanto ao Tiago Salazar , cujos livros, também são de digno recorte… aconselho a ir directamente ás páginas 274, 275, 276, 277 do seu livro “Viagens Sentimentais” só para aguçar o apetite.. belíssimo!

Boas leituras e óptimas viagens!

E, tal como Caetano: “minha sede não é qualquer copo de água que mata, minha sede é uma sede que é a sede do próprio mar”

Olá
Estive sem computador (vírus…)
Fiquei muito contemte por ver o “meu” livro aqui apresentado e o entusiasmo que ele provocou.
Quando passei o Natal em Ubatuba dei ao meu marido a versão “álbum” desta viagem (comprei cá, levei na bagagem). É um livro com mapas e imensas fotografias maravilhosas.
Ainda bem que gostou do livro, Ricardo. Quando o comprei, estava mesmo convencida que lhe ia agradar.
Ele tem muitos outros livros e lá continua viajando.
É da Figueira da Foz, conhecem? Não fica muito longe de Coimbra.

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