O paulistano e o stress

Lagoa das Gaivotas, Santo Amaro do Maranhão

Ano retrasado, quando eu estava nos Lençóis Maranhenses, resolvi ir a Santo Amaro do Maranhão (que vários leitores do blog — com toda a razão — tinham me recomendado como a parte mais bonita do parque). Deixei o Blogmóvel num estacionamento em Barreirinhas, peguei o ônibus que ia a São Luís e desembarquei 45 minutos depois, numa parada da beira da estrada, onde a viagem continuaria por mais uma hora num jipão de linha pelo areião.

Junto comigo desembarcou um simpático casal — que, logo vim a saber, também vinha de São Paulo. A parada era muito simples: um lugar sem paredes, com uma mesa de sinuca e uma vendinha. No balcão havia café quente na garrafa e tapiocas fresquinhas, dessas mais grossas que fazem do Ceará ao Maranhão, quase sem sal, que sozinhas não têm tem graça mas ficam perfitas com café quente e forte.

Depois de tomar café e comer tapioca, o paulistano descobriu que o jipão que nos levaria a Santo Amaro estava ali ao lado, sendo lavado. Isso bastou para que ele tivesse um pequeno acesso de fúria, ora essa, lavar o jipe numa hora dessas, e a gente esperando aqui no meio do nada. O que ele não sabia — e que eu sabia, porque já tinham me dito quando fui comprar a passagem — é que a viagem só continuaria dali a uma hora, quando passasse o ônibus que vinha na direção contrária, de São Luís a Barreirinhas, e depositasse os passageiros que faltavam. Na verdade, aquela era uma ótima hora para lavar o jipe 🙂

Na semana seguinte era a minha vez de fazer a crônica final do Guia do Estadão e eu me inspirei no fato para escrever este pequenino tratado antropológico (que estou há séculos para publicar aqui e sempre esqueço):

Ô, meu rei

O paulistano normalmente leva uma vida tranqüila, sem sobressaltos. Estamos perfeitamente adaptados ao nosso habitat. Sabemos como proceder em todas as situações, desenvolvemos métodos e temos soluções à mão para praticamente todo tipo de imprevisto. Na boa: ser paulistano é conseguir ficar relax mesmo morando numa cidade desse tamanho.

Por isso, quando o paulistano quer realmente se estressar, o que ele faz? Quando o paulistano quer realmente se estressar, o paulistano tira férias.

O fato é que o paulistano não está preparado para o estilo de vida de outros povos – principalmente se esses outros povos falam português e vivem dentro do Brasil. Não é um problema apenas de ritmo ou de qualidade de serviço. Qualquer diferença cultural – do jeito de falar à preferência musical ao tempero da comida – é motivo para o paulistano se estressar.

O pessoal dos outros lugares acha graça, pensando que paulistano é um estressado de nascença. Não é. A verdade é que o paulistado ficou estressado foi naquele momento. De São Paulo ele saiu calmo, que eu vi.

Quer ver o paulistano ficar muito, muito, muito estressado? Basta usar o pronome de tratamento “meu rei” numa situação em que algo deu errado. Quando alguém começa a dar uma explicação ou pedir desculpas com um “Ô, meu rei…”, sai de baixo. Do outro lado da linha tem um paulistano à beira de um ataque de nervos.

Mas por que diabos o paulistano tira férias, se fora de casa tudo para ele é motivo de stress? Porque o paulistano é um idealista e um abnegado. O paulistano tem uma missão nessa vida, que é a de levar a eficiência a todos os cantos do país – aproveitando a mesma viagem para, se possível, varrer o coentro da face da Terra.

Isso que o paulistano fala – “eu vou descansar” – é pura desculpa de missionário. Paulistano não sabe descansar. Não está no seu DNA. O paulistano só se propõe a descansar porque dessa maneira ele vai poder ficar mais estessado – o que facilita a tarefa de mostrar a essa gente como é que as coisas devem ser feitas de um jeito profissional. É assim que tem que ser. E um paulistano, por definição, jamais fugirá das suas responsabilidades, nem que para isso tenha que abdicar por uns dias do seu dia-a-dia resolvido e relaxado.

Ei! Você aí! Quer parar de chiar o “s”? Não vê que eu tô me estressando?

37 comentários

Bom texto porem trata-se de uma ficao. Paulistano eh estressado ate dentro do elevador. O outro sempre esta errado e a atrapalha-lo. Uma cidade enorme e mal resolvida como a capital nao pode gerar habitantes tranquilos.

Olá, estou aqui novamente, pois nossa viagem à Santiago para julho de 2011 foi cancelada pela operadora devido ao vulcão e sem condições de irmos até Bariloche, e agora estamos sem destino e frustrados. Então decidimos, eu, meu marido e minhas duas filhas adolecentes, mudar nosso roteiro. Gostariamos de saber um roteiro legal para irmos de São Paulo ao Maranhão de carro, quais lugares bons para ir parando, visitando e conhecendo ida e volta, inclusive dicas no Maranhão/Lençois. Outro destino cogitado, foi irmos para o Sul do Brasil. Gostamos de apreciar a cultura da região, como estradas secundarias, vilarejos, turismo rural. Por favor, qualquer dica será de grande valia.
Grande abraço

Sandra

    Olá, Sandra! O Ricardo Freire recomenda ir de avião até São Luís e então usar transporte local — ônibus e jipe a Santo Amaro do Maranhão, então ônibus a Barreirinhas, então voadeira a Caburé, daí 4×4 a Parnaíba e Barra Grande do Piauí. De lá vocês podem voltar por Teresina ou seguir a Jericoacoara (também de 4×4) e Fortaleza.

    https://www.viajenaviagem.com/category/lencois-maranhenses

    Um carro não serve de nada nos Lençóis Maranhenses. A viagem até lá é longuíssima e você teria que ir pelo interior do Brasil. Depois de chegar, o carro ficaria estacionado ou teria que dar voltas enormes (de Barreirinhas a Parnaíba são 600 km pelo asfalto e 120 km pela areia).

    Se quiser um roteiro até a Bahia, veja este:
    https://www.viajenaviagem.com/2009/07/de-sao-paulo-ao-sul-da-bahia-de-carro/

Fala sério!!!!!!!!!!!!!

Coisinha mais sem graça é comida sem coentro…rsrsrsr

Ricardo, eu sou gaúcha e moro em Sampa ha 30 anos. Eu acredito que o turista mais chatinho é o gaúcho…rs.

Salvo raras exceções como eu e você é claro,rs

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