O rei e eu

Minha crônica no Guia do Estadão desta semana, especial para os amigos da Avivixe. Lamentavelmente, por questões de fechamento da edição, foi escrita antes das digressões de Lula sobre o assunto. O artigo da querida Barbara Gancia na Folha está mais atualizado.

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O Brasil é um país afortunado. Olha que sorte a nossa: nunca na história deste país houve um presidente falastrão como Hugo Chávez. Digo isso por experiência própria.

A única vez que fui à Venezuela, em 2003, precisei passar uma noite em Caracas. Fiquei num hotel perto do aeroporto, porque pegaria um teco-teco de manhã cedinho para o arquipélago de Los Roques. Depois do jantar, liguei a TV. Estava passando “El Clon”. Dublada e com trilha sonora modificada, era muito difícil imaginar que aquela novela um dia tivesse sido brasileira. Não era uma questão de trama, nem de diálogos, nem de iluminação. Era o rímel, mesmo. Só uma novela mexicana ou colombiana ou venezuelana gasta tanto rímel quanto “O Clone”.

De repente interromperam a novela para uma transmissão em rede nacional. Entrou um videotape, sem cortes, de um trecho de uma cúpula latino-americana em Assunção. O programa começava no momento em que Hugo Chávez tomou a palavra, para nunca mais largar.

Durante trinta e cinco minutos, contados no relógio, fui submetido à mesma tortura que o coronel infligiu a seus colegas presidentes. Meia hora de Hugo Chávez jogando para a torcida, pensando em encher lingüiça da sua rede nacional à noite, enquanto aborrecia altas autoridades com papo furado. De vez em quando a câmera enquadrava o presidente Lula e eu me compadecia de sua vontade de bocejar.

Demorou, mas Glória Peres foi vingada. Calhou de eu estar de novo fora de casa. Domingo passado, a TV do meu quarto de hotel estava ligada na CNN em espanhol, quando falam do incidente entre o rei de Espanha e o presidente da Venezuela na cúpula ibero-americana de Santiago do Chile. Irritado pelo fato de Chávez, que já tinha se pronunciado, não deixar o presidente espanhol Zapatero falar, o rei Juan Carlos não se conteve e lascou: “Por que no te callas?”

Vocês não estão entendendo. Isso é muito maior do que um bate-boca entre autoridades. Naquele momento, o rei de Espanha cunhou o primeiro grande slogan do século 21. Por que não te calas? Enfim, um grito de protesto útil contra políticos de todo o espectro ideológico! De Bush a Kim Jong Il, não há político que não mereça um “Por que não te calas?” — pelo menos de vez em quando.

Precisamos fazer camisetas, imprimir cartazes, compor um jingle, fundar uma ONG. Por que não se calou? Não se calou por quê?

Rei! Rei! Rei! Juan Carlos é nosso rei!

44 comentários

Olá,

Gostei bastante do conteúdo e da forma de comunicação do seu site.

Trabalho para uma empresa de frete de aviões, e gostaria de saber se você possui um email direto para enviarmos para você uma promoção de carnaval. Te interessaria essa informação?

Fico no aguardo do seu retorno.

Abraços,

Leonardo Pallotta
[email protected]

O post em si foi muito bom, agora a resposta do Riq nos comentários foi simplesmente espetacular. Se eu (que conheço vários venezuelanos, todos inconformados com o governo do Kik… Chávez) já tinha bons argumentos para defender a democracia (democracia de verdade, não esse embuste que há hoje por lá), agora tenho ainda mais!

Ah, e o post ainda serviu para “oficializar” a Avivixe! Pena que só fui ler hoje. Também, quem manda blogueiro de turismo ficar postando no meio de fim de semana prolongado?
😛

Era só o que faltava, na discussão entre o rei e o ditador tinha que aparecer o nosso presidente bobo da corte.