Oito e meia (minha crônica no Divirta-se do Estadão)

Ilustração: Daniel Kondo

Ilustração | Daniel Kondo

Esta semana me dei conta de uma farsa que tenho ajudado a encenar. A farsa das reservas de restaurante no Brasil.

Você também deve ter participação nela. Se não tiver, pode experimentar: custa apenas uma ligação telefônica.

Ligue para o restaurante da sua preferência e peça para fazer uma reserva para esta noite. O atendente vai responder com um “pois não” protocolar; em seguida vai querer saber quantas pessoas serão e para que horário você deseja reservar. Então você vai dizer “Nove horas” e ele vai informar: “Só aceitamos reservas até oito e meia”.

Nesse momento você titubeia mas acaba aceitando. Pronto, reserva feita para as oito e meia. A farsa está montada.

Por que farsa? Porque se você pudesse mesmo chegar às oito e meia no restaurante, você não teria ligado para fazer a reserva. Do D.O.M. do Oiapoque ao Fasano do Chuí, não há restaurante nesse Brasil em que você não consiga uma mesa livre às oito e meia da noite. Antigamente daria para dizer que às oito e meia da noite todos os restaurantes estariam às moscas – mas hoje, nem isso, porque todas as moscas estão vendo Avenida Brasil.

Então você faz essa reserva por fazer – ou para poder ter alguma moral quando chegar às nove e quinze, dizendo que tinha uma reserva para as oito e meia mas o trânsito estava complicado.
Até quando, Brasil?

Agora que já usamos o cinto de segurança corriqueiramente, que achamos normal que não se fume em ambiente fechado e que nos preocupamos com a faixa de pedestres, poder fazer reservas em restaurante seria um próximo passo rumo à civilização. Alguém lembra quando o teatro nunca começava na hora? Até que Antônio Fagundes e Marília Pêra decidiram que pontualidade faria parte do espetáculo.

Já que existe a associação dos Restaurantes da Boa Lembrança, bem que podiam fundar a associação dos Restaurantes da Boa Reserva. Poucos e bons, que dêem exemplo e ofereçam reservas para os horários em que as pessoas realmente jantam. Atrasou? Dançou.

Quem sabe a gente chegue ao nível dos americanos, que podem reservar até nos horários pré-teatro e pós-teatro. “É pra essa noite? O senhor quer pré-Carminha ou pós-Carminha?”.

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20 comentários

Tá certo, mas o problema é um pouco mais complexo.
Nos outros países, você chega, come e vai embora.
No Brasil, as pessoas nem sempre pedem a refeição imediatamente após a chegada ou vão embora logo após o fim da refeição.
Muita gente, mas muita gente mesmo, ficaria ofendida se o restaurante pedisse para que eles fossem embora no horário que chegou o pessoal da 2a. reserva (os “pós-teatro”).
Então, o restaurante só reserva no horário de chegada 8h30 porque não tem a mínima ideia de quando o povo vai resolver ir embora.

Ótimo texto, mas o problema não é só da casa; quem faz a reserva deveria leva-la a serio e cumprir horários combinados não chegar alguns minutos depois e por a culpa no transito e etc e mais imagino que temos que atender os vem a casa sem reserva pois a busca por clientes é constante e um novo pode estar no sem reserva o que limita as disponibilidade de mesas para reservas.
Mas gostaria muito de trabalhar só com reservas vou continuar a buscar a perfeição e quem sabe um dia…

A FlaviaHC disse tudo! Além dos donos fazerem estágio nos restaurantes europeus e americanos, o povo também poderia aprender a ser pontual como (alguns) deles! Se todos respeitam os horários daria tudo certo!

Ótimos texto e idéia.
Porque todos não optam por citar restaurantes que fazem reservas em qualquer horário?
Além de criarmos um bom banco de dados, quem sabe não estimulamos os que não fazem?
Eu começo citando o Brasil a Gosto.

    O texto do Riq é muito pertinente! Para quem acha q o restaurante nao saberia o q fazer com a reserva das 10 qdo ainda ha clientes as 9:30 na mesa, sugiro q os donos de restaurante facam estagio nos restaurantes americanos e europeus, pq la eles sabem como. Otima ideia, EduLuz!

Tentei fazer uma reserva para o dia das mães e o restaurante só aceitava reserva para as 12 h. Acredito que pela pela falta de hábito o restaurante não saberia o que fazer se não tivesse mesa disponível , só pode ser isso …

Interessante, mas ainda não entendi uma coisa: Se eu pudesse reservar para às 22:00 hs, como eles fariam com o cliente que estivesse nesta mesa ?
Ou ninguém poderia sentar lá até eu chegar ?

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