Ora, carambolas

Minha crônica no Guia do Estadão de hoje.

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Outro dia, no café da manhã, comi a carambola mais gostosa de que tenho lembrança.

Para falar a verdade, acho que não tinha lembrança de nenhuma outra carambola que pudesse chamar – educadamente, claro – de gostosa. Para mim, carambola sempre foi uma fruta decorativa. Fatiadinha, enfeitava drinques exóticos à base de saquê. Inteira, transformava o meu café da manhã em cenário de comercial de margarina – antes de voltar, invicta, para a cozinha.

Acontece que aquela carambola estava de um amarelo tão queimado, mas tão queimado, que parecia me dizer: vem ni mim que eu tô docinha. E não é que estava mesmo? Naquele momento eu me dei conta do crime que se comete contra as carambolas. Ninguém deixa a carambola amadurecer o bastante! Só as carambolas verdinhas e bonitas são valorizadas pela sociedade. Nega-se à carambola os direitos que ninguém pensaria em negar, digamos, ao maracujá.

Bastou provar uma suficientemente madura para eu entender que, a exemplo da melancia, a carambola é um suco que se come. No caso, com embalagem e tudo. Percebi também que não sabia comer carambola direito. Todas as vezes que tentei traçar uma carambola meio verde, fui roendo as abas, uma a uma. Tsk, tsk, tsk.O certo é encarar a carambola de frente, abocanhando as cinco pontas de uma vez. É incrível mastigar algo de design tão complexo fabricado pela natureza.

É uma injustiçada, a carambola. De onde veio? Como se chamará em português de Portugal? A exemplo de Paulo Coelho, ela soa bem melhor em inglês: starfruit. Fruta-estrela. Não se sabe sequer onde é plantada. Carambolas não são como os morangos – naturais, como se sabe, de Atibaia – nem como os figos, que fazem questão de vir de Valinhos. Não existe nenhuma Festa da Carambola – e conseqüentemente, nenhuma Rainha da Carambola. É triste: eu devo ser o primeiro brasileiro a festejar a carambola.

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O que leva alguém a plantar carambola? “Fizemos uma pesquisa de mercado e detectamos a existência de um nicho promissor de drinques à base de saquê que precisam ser decorados”. Nunca li sobre alguém que tivesse enriquecido com monocultura de carambola. Que eu saiba, as geadas da Flórida nunca ajudam a elevar a cotação da carambola na bolsa de commodities.

Não importa. Meu lema agora é: viva e deixe a carambola viver! Mas quando ela estiver bem amarelinha, encare a fruta de frente, e abocanhe as cinco pontas da estrela de uma vez.

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