Paris pra Dani (Lerê, lerê)

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Outro dia a Dani do Rio me deixou bleu-blanc-rouge de inveja ao pedir um help para destrinchar uma viagem de uma semana em Paris (com o maridão, a trabalho) sem ter mais pontos obrigatórios para ver.

Claro que ela só queria dicas parisienses fora do basicão. Mas, do jeitinho que ela escreveu, acabou inspirando a minha coluna desta semana lá no ViajeAqui.  

Originalmente aqui só tinha um link para o texto completo. Mas como o link caducou (e não há mais permalinks lá no ViajeAqui), aqui vai a transcrição integral.

O que fazer numa cidade onde você já foi a todos os pontos obrigatórios?

Essa foi mais ou menos a pergunta que me fez uma querida leitora minha outro dia. Por causa do trabalho do marido, a pobrezinha vai precisar voltar a Paris (a Paris!!!!) apenas seis meses depois da primeira viagem.

Muito provavelmente ela só queria que eu desse sugestões de programas fora do basicão para essa nova semana na cidade.

Mas se eu resolver enxergar algumas minhocas nessa pergunta, a coluna fica muito mais interessante. Você deixa, Dani? Obrigado.

É o seguinte. Nós, turistas (eu detesto essa distinção pretensiosa que alguns fazem entre “turistas” e “viajantes”), somos escravos do cartão-postal.

Organizamos nossos roteiros de um jeito assim e assado para conseguir bater ponto em todos eles. Lerê, lerê! Ai da gente se não entrar numa igreja obrigatória. Lerê, lerê! Quantos museus obrigatórios você já viu hoje? Lerê, lerê! Será que eu vou conseguir reserva naquele restaurante obrigatório? Lerê, lerê!

Quando a gente consegue ticar todos os pontos obrigatórios de uma cidade, lerê lerê, está na hora de passar para a próxima.

Nada contra os pontos obrigatórios. Tudo contra a obrigação.

A gente se acostuma tanto com as obrigações diárias de escravo dos cartões-postais, que quando não tem nada na agenda do lerê, fica perdido. Pior: fica culpado. Como é que eu ainda estou aqui nesse lugar onde não existe nada mais obrigatório para fazer? Socorro, eu tô livre!

Se você algum dia se vir nessa situação, não tenha medo. Aí é que o lugar fica realmente bom.

O meu sonho de consumo é voltar, à paisana, a lugares onde eu já cumpri todo o circuito lerê-lerê. Melhor: onde haja alguma coisa muito importante que eu ainda não tenha visto de perto – mas que eu todo dia dê um jeito de adiar para o dia seguinte, até não ter mais tempo para cumprir 🙂

Tudo bem, admito que existem lugares do mundo que só justificam a viagem até lá por causa de seus pontos-lerê. Mas cidades como Paris foram feitas para os com-tempo e sem-obrigação. “Flanar” foi um verbo cunhado em Paris. “Pegar uma mesa na calçada e pedir um café” foi outro.

Da última vez que tive tempo sem lerê em Paris (já faz nove anos!), saí andando sem mapa nem destino, atravessei o Sena por uma ponte onde nunca tinha posto os pés, subi uma ladeira que não conhecia, e, lá pelas tantas dei de cara com uma feira linda e sofisticada, que não ficava numa rua, mas numa praça, dessas com fonte no meio e tudo, e que só agora, pesquisando no Google, vim a saber que é a feira da Place Monge. Se eu tivesse visto num guia, não teria ficado tão surpreso. Não só com a feira, mas também pelo fato de ter descido outra rua e pimba: ter deparado com o Panthéon.

O ideal é que em todo lugar interessante (nem precisa ser tãããão interessante quanto Paris, não) a gente possa reservar pelo menos um dia para vagar a esmo, sem objetivo nem lerê de espécie nenhuma.

E que, mesmo nos dias de lerê brabo, possa fazer recreios longos. Ou chegar ao ponto-lerê pelo caminho menos objetivo. Para que a gente não guarde na memória só o cartão-postal, mas também o making-of do cartão-postal.

(Eu bem que queria poder aplicar isso retroativamente. Meu Deus, como eu gostaria de me lembrar da primeira coisa que eu comi depois de ter descido da Torre Eiffel!)

Mas não, Dani, eu não estou sugerindo que você fique uma semana zanzando por Paris feito uma doida varrida sem lerê nenhum na agenda.

Só para te inspirar, vou dar umas dicas de lerezinhos gostosos e totalmente não-obrigatórios.

Ao chegar no Charles de Gaulle, entre na livraria do setor de desembarque. Compre três livros

1) um Paris par arrondissement – um livrinho mágico de bolso em que você aprende a achar facinho qualquer endereço parisiense e a estação de metrô mais próxima;

2) um Pariscope, que traz toda a programação cultural da cidade para a semana; e, se tiver,

3) um Petit Lebey 2007 des Bistrots Parisiens, um guia sensacional para achar bistrozinhos recomendados (tradicionais, regionais ou modernos).

Pronto. Você está bem equipada para esta semana que está me deixando bleu-blanc-rouge de inveja.

Flane. E use seu Paris par arrondissement quando estiver mais perdida do que o recomendável.

Vá ao cinema. Todos os filmes que você perdeu no cinema e não saíram em DVD parecem estar em cartaz em Paris.

Dê um jeito de pôr uma feira de rua no seu caminho. E/ou uma padaria nota 10. E/ou um mercado de pulgas.

E quando cansar de Paris, dê um pulinho no norte da África ou na Indochina: passeie por bairros com forte presença de imigrantes, como Oberkampf e Belleville.

Se no caminho você topar com o Arco do Triunfo, a Torre Eiffel ou o Louvre, mande lembranças, tá?

143 comentários

Nada melhor do que viajar a esmo, Fui a Paris e nao subi a torre, fui a NY e nao fui na estatua da liberdade, fui a Londres e nao assisti a troca de guarda… preciso voltar para os 3!

Muito bom o seu blog!

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