Postal por escrito: Sydney

"Bottle tree" em Sydney

21 de janeiro de 2005. Uma das características em comum entre as grandes cidades do mundo é que elas se acham. Ande por Paris, por Nova York, por Londres, por Roma, por San Francisco, por Barcelona, pelo Rio, e você percebe que essas cidades não fazem nada para combater o seu complexo inato de superioridade. Mesmo quando têm problemas crônicos ou insolúveis, como o clima (no caso de Londres), a violência (no caso do Rio) ou a paranóia (no caso atual de Nova York), as grandes cidades do mundo têm certeza de que estão abafando e não perdem a chance de colocar o forasteiro no seu devido lugar.

Sydney tranqüilamente pode ser escalada nesse time de cidades de primeiríssima grandeza. Sydney é linda, gostosa, tranqüila, simpática e civilizada – eu não conheço nenhuma outra grande cidade que mereça esses cinco adjetivos ao mesmo tempo. Mas – engraçado: Sydney não se acha. Quer dizer, depois de uma semana por aqui, não achei que Sydney se achasse. Pode ser que Sydney se ache tanto, mas se ache tanto, que faça uma força incrível para fingir que não está se achando. Mas acho difícil. Você não acha?

(Parênteses: viajar é, sim, tirar conclusões precipitadas sobre os lugares que você visita. Se você não quer tirar conclusões precipitadas, não viaje – faça um doutorado. Fecha parênteses.)

Uma revista de culinária daqui traz uma entrevistazinha com Anthony Burdain, o cozinheiro que virou escritor de best-sellers (“Cozinha Confidencial”, “Por um prato de comida”). Bourdain diz que gosta de Sydney porque aqui é a única “no-bullshit zone” da Terra. O único território livre de frescura do planeta. (Nota do tradutor: livre de frescura no sentido de formalidade e hipocrisia. Porque do outro tipo de frescura Sydney está lotada – a cidade é uma das capitais do mundo gay.)

Os Sydneysiders – ou sídneis, como quer o meu genial amigo Guime – são tão acessíveis e despojados que não parece que alguém precise nascer aqui para se tornar rapidamente um deles. Eu não consigo me imaginar transformado num parisiense, num florentino ou num carioca ainda nesta encaranação. Mas, sei lá por quê, acho que bastava eu piorar ainda mais a minha pronúncia, e pronto: até eu poderia ser um sídnei.

Sydney Harbour

Mas será que eu gostaria de ser um sídnei? A cidade é deslumbrante, não há dúvida. Sua baía – que eles chamam de Harbour – é toda recortada, e oferece quarenta prainhas (atenção: eu falei quarenta) com balneareabilidade perfeita. Pegamos uma barca nas docas de Circular Quay e em quinze minutos estávamos em Watsons Bay, onde nos esperavam duas praias pequenininhas, de águas transparentes, que um carioca jamais pensaria em procurar na baía de Guanabara. As barcas – ou os ferries, se você preferir – são os morros de Sydney: é a bordo deles que você aprecia as belezas de Sydney, tanto as naturais quanto as construídas pelo homem. (A propósito: não há avenidas beira-mar. Sydney só se mostra para quem passeia por suas águas.)

O centrão de Sydney, chamado de CBD (Central Business District) é o endereço dos hotéis mais clássicos, e desemboca no cartão-postal da cidade: a Ópera de Sydney, com seu vizinho Jardim Botânico e a Ponte da Baía (Harbour Bridge) ao fundo. Para lá do centrão, em direção ao fundo da baía, ficam as docas do Darling Harbour. Ali foi montado um turistódromo de proporções quase lasvegasianas, com shoppings, monotrilho, cassino, aquário e uns três puertos maderos de restaurantes, bares e lanchonetes.

A Sydney mais bacana, claro, fica fora da zona turística. As primeiras docas para cá do centrão são as de Wooloomooloo, onde um armazém restaurado com inteligência e talento virou um hotel (o W), um condomínio de apartamentos e uma ala de restaurantes, todos chiquérrimos.

(Novos parênteses. Provavelmente você não esteja familiarizado com a minha definição para os pontos cardeais em português do Brasil. É assim: para o viajante brasileiro – eu incluído, e na janelinha – não existe esse negócio de norte, sul, leste e oeste. Os pontos cardeais, em português do Brasil, são: à esquerda, à direita, pra cá, pra lá, na frente, atrás, em cima e debaixo. Fecha novos parênteses.)

Subindo o morro atrás das docas de Wooloomooloo, você passa pela zona do nem-tão-baixo-meretrício-assim (Kings Cross) e chega a Darlinghurst – que, junto com Paddington e Surry Hill, forma o triângulo de bairros descolados. Por ali todos os restaurantes são bacanas, inclusive os baratos. Muitos deles não têm grana para – ou não se deram ao trabalho de – investir numa licença para vender bebidas, e por isso funcionam em regime “BYO” (bring your own, traga sua própria garrafa). Outros têm licença, e mesmo assim aceitam o BYO, cobrando uma rolha bem módica. Como se não bastasse ser um Leblon gastronômico, Darlinghurst (“Darlo” para os de casa), em especial, está cheio de hotéis charmosos e baratos – alguns até baratíssimos. Se for verão, não esqueça suas Havaianas – entre as oito da manhã e as oito da noite, é o que todo mundo calça.

As praias ficam meio longe – principalmente para quem está de ônibus. Se bem que, apesar de ter tanta praia, Sydney não é propriamente uma cidade de praia. Eu até poderia dizer que a temperatura da água não deixa – quem consegue entrar n’água em Sydney provavelmente foi pingüim em alguma vida passada. Mas não é isso. A relação da cidade com a praia é totalmente diferente da que a gente está habituado. As pessoas aqui vão à praia como quem vai a um parque – não como quem vai à sala de estar da nação, como no Brasil. Falam muito que os australianos têm cultura de praia, mas nós temos muito a ensinar a eles – a começar pelo queijo de coalho na brasa. Em troca, eles poderiam nos contar como é que se consegue manter uma baía inteira limpa mesmo com portos funcionando e barcas e mais barcas cruzando pra lá e pra cá o tempo todo. Deixo aqui uma sugestão de factóide para o César Maia: dar a concessão da Baía da Guanabara à prefeitura de Sydney, para fazer o que quiser. Aposto que em dez anos todos poderíamos mergulhar e abrir os olhos na enseada de Botafogo.

Mesmo com toda a beleza, toda a limpeza, toda a simpatia e toda a civilização, não sei se eu gostaria de virar um sídnei. Pensando bem, morar aqui pra quê? Para não empinar o nariz? Para não desenvolver um charme que ninguém conseguiria imitar? Para não lançar aquele olhar de eu-moro-na-melhor-cidade-do-mundo-e-você-não? Ah, assim não tem graça.

Demorou, mas eu achei o defeito de Sydney. O defeito é que Sydney não se acha.

Placa no National Gardens

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12 comentários

O unico defeito que eu consegui achar foi a distancia! O que um amigo meu australiano disse que de repente pode ser considerada uma qualidade!

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