Propagandas da Copa: Coca-Cola e Itaú melhores que Embratur

Comercial do Itaú

Antes de virar turista em tempo integral, eu trabalhava em publicidade (talvez você se lembre desta campanha que eu escrevi numa encarnação anterior). Tive a sorte de nunca trabalhar para o governo. Aprovar boas idéias com a iniciativa privada já é suficientemente difícil; com o governo — qualquer governo — beira o impossível.

Por isso, não encare o que vou postar como uma crítica específica às agências, produtoras e aos funcionários públicos envolvidos na criação, produção e aprovação dessas campanhas. Seria um milagre que, dadas as circunstâncias em que esse tipo de trabalho é licitado, encomendado e executado, saísse coisa realmente boa. Mas não dá pra não lamentar a perda recorrente de oportunidades de fazer comunicação eficiente e memorável para o turismo brasileiro. Temos produto e talento de sobra para criar e produzir algo bom. Mas até hoje, na minha opinião, só o vídeo de candidatura do Brasil aos Jogos Olímpicos de 2016 merece aplausos.

Para a Copa de 2014, não por coincidência, os melhores vídeos são de patrocinadores — e não dos órgãos oficiais.

A melhor trilha (infinitamente mais bacana do que a canção oficial da Fifa) é a da Coca-Cola, que tem uma base irresistível do Monobloco e, no Brasil, a linda voz (e o sorriso!) de Gaby Amarantos. Eu me emociono toda vez que ouço (sou desses).

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O vídeo tem também uma versão com cenas externas — pena que são fracas, feitas em apenas três ou quatro locações e quase sem figurantes. É dos raros casos em que o clipe do estúdio ficou melhor que a versão completa.

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A música do Itaú também é bacana (adoro quando entra a Fernanda Takai), mas o forte desse comercial são as cenas. Da primeira vez que vi, no cinema, cheguei com o comercial pela metade, e achei que finalmente fosse uma boa propaganda do governo para envolver o brasileiro com a Copa. Fuén! Era de um patrocinador. O vídeo ganha pontos extras comigo por não ter medo de colocar o povo na rua, evocando e invertendo o sinal das manifestações de junho. Assim como o da Coca, este comercial do Itaú me emociona toda vez que vejo. (Eu avisei: sou desses.)

Pois bem: esta semana a Embratur lançou seus dois comerciais. São tão diferentes entre si, que parecem feitos por agências diferentes, a partir de briefings diferentes, e aprovados por empresas diferentes. Não conversam entre si e demonstram a total falta de comando da comunicação do turismo brasileiro.

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Começando pelo melhorzinho. O filme “Dança” pelo menos tem estilo. É um comercial moderno, com edição elegante, uma idéia visual central que é bem desenvolvida ao longo do filme. Qual é o problema, então? Vários. O maior deles: o comercial não empolga. A escolha de um forró para a trilha é bem-intencionada, mas esse forró específico não decola; os primeiros trinta segundos são dominados por uma percussão torturante, que faz você checar se deu problema nos alto-falantes do PC. As imagens são escuras ou no contra-luz; o espectador nunca é envolvido pela dança, nunca é convidado a participar. É o comercial de um país obscuro, que não sinaliza querer sair da obscuridade. Desculpem, mas nem eu fiquei com vontade de viajar para esse lugar.

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Já o segundo comercial é um desastre onde nada, absolutamente nada se salva. A trilha não é trilha: é um jingle rasteiro, um axezinho sem-vergonha (e aqui não vai nenhum preconceito contra axé; sou fã de Timbalada, Carlinhos Brown, Daniela Mercury, Margareth Menezes e uma ou outra coisa da Ivete), usado para colar imagens de baixa qualidade e zero direção de arte. A legendagem deixa tudo ainda mais amador (já imaginou ver um vídeo promocional da Croácia com um jingle interminável traduzido em legendas que puxam a sua visão para o rodapé do quadro?). Tristeza não tem fim. Numa só peça, passam vergonha o turismo, a publicidade e a música do Brasil.

Não é por falta de talento, nem de referência. Quer ver um vídeo maravilhoso de turismo de um país usando música e um picadinho de cenas bonitas? Dê uma olhadinha neste dos Estados Unidos:

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(I rest my case.)

Leia mais:

Quando o Brasil vai ser um Bric do turismo?

5 idéias para o Brasil receber melhor os estrangeiros

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29 comentários

Chega de vender samba,futebol,mulata,cristo, pão de açúcar…..o Brasil é mais do que isso !

Ricardo,
Já havia notado isso, pra falar a verdade eu mal lembro se a Embratur tem alguma propaganda. Destaco também a da TAM, que tem Thiago Silva, Marcelo e David Luiz destacando os voos internacionais que a companhia faz para Paris, Madrid e Londres respectivamente.
Potencial nunca vai faltar pro Brasil, mas parece que falta vontade ou novas ideias pra divulgar, uma pena.
Abraços!

Realmente concordo, nada empolga, muito mal feitas essas propagandas, uma pena não utilizarem boas idéias, talvez nem tenham buscado algo melhor. Amei a do Itaú também.

Ainda não vi nada que mostre o povo brasileiro em si, aquilo que os estrangeiros sempre comentam, sobre nossa alegria, nossa receptividade, nossa solidariedade, nossa vontade em querer ajudar mesmo não falando a mesma língua deles, emfim, o que temos de melhor. Mostrar imagens dos pontos turísticos é importante, mas mostrar como é o povo que habita este país é ainda mais essencial, passa mais emoção, sabe.
Acaba que o nosso “comercial” é feito no boca a boca pelos turistas e não por nós. Muita pena!

As cenas da propaganda do Itaú realmente são emocionantes.Quanto à música,fui gostando aos poucos.A da Coca Cola empolga mais.

E a campanha Land of Dreams é belíssima.Se estou zapeando,e estiver passando esse comercial paro na hora.A música é linda

Quanto às campanhas da Embratur:blah,né?nada que já não tenhamos visto antes……medíocres.

Sem entrar no mérito das campanhas e das dificuldades inerentes a atender contas governamentais, digo: sou dessas, 2. Choro, mesmo. Principalmente porque estou super chateada por não ter conseguido ingressos para vir para a Copa.

Riq.
Concordo plenamente, estamos perdendo uma chance única de “vender” o turismo no país.
Quanto às dificuldades do governo em fazer algo impactante, vejo dois lados.
O primeiro é que vender algo que sabidamente tem problemas graves é missão impossível.
Segundo que toda a vez que o Brasil precisa apresentar algo como típico, me parece que os interessees bizarros estão acima de tudo. Basta ver que diante de tantas escolhas de boa qualidade na música brasileira, não raras vezes são as “tranqueiras” que se sobressaem em momentos assim mais oficiais. Quero só ver quem cantará na Copa e nas Olimpíadas. Já tô até vendo “beijinhos no ombro” por ai…
Ah, este vídeo dos EUA é fantástico. Tem passado na TV a cabo.

    Diogo, existem muitos países com problemas graves e que se vendem bem. Inclusive ao menos dois deles usaram seus problemas como tema em campanhas: Colômbia e Líbano. O primeiro falou abertamente em PERIGO (“Colômbia, o perigo é você querer ficar”), o segundo tocou no assunto terrorismo, com um comercial chamado “Don’t go to Lebanon”. A nossa dificuldade em vender nosso país não é essa, pode acreditar. É a política mesmo. =(

Com pequenas discordâncias relativas a gosto pessoal (me refiro aos comerciais de Coca-Cola e Itaú – mas neste último concordo com as cenas impactantes do povo) assino embaixo do que está neste post, principalmente no que diz respeito a dificuldade de se fazer algo bom envolvendo qualquer governo, ao desperdício de talentos e à análise dos dois comerciais do Brasil mais recentes. É triste. São mais do mesmo. Dá sempre a impressão de que já vimos isso. O medo de fazer algo novo e ousado (por parte dos políticos que comandam o negócio, não dos publicitários) impera.