São Paulo: city tour em 7 horas

Sanduba de mortadela do Mercadão (só fotografei, não comi!)

16 de abril de 2005. (Título original do post: “A sua mais completa tradução”.) Ela ia ficar oito horas presa no aeroporto, tadinha, entre o desembarque do vôo de Toronto e o embarque do vôo a Brasília. Ela é casada há seis anos com o meu melhor amigo dos tempos de escola – a quem eu não vejo há vinte. Ela resolveu me ligar. E então eu tive a idéia genial de usar minha nova amiga de infância como cobaia de um city-tour por São Paulo que eu pudesse patentear e que se tornasse o início de uma mega-agência de turismo receptivo que finalmente faria com que eu ganhasse dinheiro com esse assunto e ficasse quaquilionário e… AAAAIIII! QUEM FOI QUE ME BELISCOU? Ah, fui eu mesmo. Onde é que eu estava?

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Ah, sim. Em Cumbica. O vôo da Air Canada chegou na hora prevista: 9h30. Mas até minha nova amiga passar pela imigração, pegar as malas e se desvencilhar da alfândega, lá se foram 45 minutos (45 minutos a menos no nosso city-tour). Mas a espera valeu. Nesses 45 minutos descobri que o Brasil não tem o mínimo do mínimo do mínimo para fazer o turismo engrenar. Quer saber o quê? Eu digo. O mínimo do mínimo do mínimo para o turismo engrenar no Brasil seria uma plaquinha com os dizeres “Vôos de conexão/Connection flights” apontando para algum lugar. Nos 45 minutos em que passei esperando por minha nova amiga, dezenas de gringos emergiram do portão de desembarque internacional totalmente desnorteados, tentando se comunicar por intermédio de mímica e frases sem verbo (“Salvador?”, “Rio?” “Natal?”) para descobrir para onde deveriam se dirigir. O que a Infraero faz com a taxa de embarque mais cara do mundo, se não coloca sequer uma plaquinha de sinalização para gringos perdidos que são obrigados a desembarcar em Cumbica por falta de vôos regulares a cidades realmente turísticas?  Felizes dos turistas que têm alguém à sua espera, segurando um cartaz com seu nome escrito. Minha nova amiga tinha. (Quem me conhece haverá de identificar o cavanhaque grisalho.)

Epa, quem bateu essa foto?

O itinerário era ambicioso. Incluía dois mirantes, dois museus, um mercado, uma feirinha (ou um shopping) e três opções de restaurantes. Eu sabia que não ia dar para fazer tudo – mas ao longo do passeio, à medida que eu fosse conhecendo minha amiga, eu saberia o que escolher. A única coisa da qual eu não abria mão era começar pelo Centro de São Paulo. Por uma razão: o Centro é o único lugar onde São Paulo é 100% São Paulo. Existem trechos da cidade em que São Paulo é tão bacana quanto Nova York, ou tão fervida quanto Londres, ou onde se come tão bem quanto na Itália. O Centro de São Paulo, no entanto, dispensa comparações. Ele é o que é. As outras cidades que tentem imitar – nenhuma vai conseguir.

Primeira parada: o Mercado Municipal da rua da Cantareira. O prédio é lindo, e proporciona a introdução mais coerente possível a uma cidade que dedica todo o seu tempo livre a comer bem.

Mercado Municipal de São Paulo

Depois que foi restaurado, no ano passado, meia São Paulo corre para lá, nos sábados de manhã, para enfrentar a fila de uma hora do pastel de bacalhau ou a fila de quarenta e cinco minutos do sanduíche de mortadela. Por isso, pegamos um grande congestionamento nas ruas próximas; minha nova amiga aproveitou para tirar fotos dos ambulantes que vendiam balas, pêras, games dos Incríveis, arrebitadores de busto e varas de pescar – parecia eu em Angola (clique aqui). Na hora de estacionar, ela levou seu primeiro susto de brasileira que nunca esteve em São Paulo: o quê? 10 reais para estacionar nesse estacionamentozinho muquifento? (Os termos não foram esses, mas são os que eu usaria.)

Mezzanino do Mercado Municipal

Quem não quer enfrentar a fila das bancas do pastel oficial de bacalhau e do sanduíche oficial de mortadela pode subir à simpática praça de alimentação do mezzanino. Mas não, não nós não quisemos estragar o nosso almoço. Tomamos um café expresso simplesinho, pedi para fotografar um sanduba que ainda não tinha chegado a seu destino e partimos para a próxima escala.

Foi então que começaram a surgir aquelas dúvidas que ocorrem a todos os passageiros de city-tour: passar perto de alguma coisa conta? Se contar, então nós fomos à Catedral da Sé (na foto) e fomos ao Pátio do Colégio também.

Catedral da Sé, vista dos fundos

Se bem que nem a Sé nem o Pátio do Colégio eram assim tão fundamentais ao meu city-tour. O meu city-tour precisava passar, isso sim, pelo Edifício Martinelli, que é o edifício mais bonito – e um dos menos conhecidos – de São Paulo. Construído nos anos 30, foi o primeiro arranha-céu da América do Sul. Por conta do caos arquitetônico da cidade, contudo, o Martinelli acabou escondido da visão do paulistano. Seu vizinho, o prédio do Banespa – cópia pobre do Empire State – virou um dos símbolos da cidade. Mas na minha opinião não chega aos pés do porte, da elegância e do charme cor-de-rosa do Martinelli.

Banespa e Martinelli

De lá fomos ao (atravessamos o) Viaduto do Chá, fomos ao (passamos ao lado do) Teatro Municipal, cruzamos Ipiranga com avenida São João (Alguma coisa acontece no meu coração etc.), deixamos o carro com o manobrista (minha nova amiga: “Gostei! No Canadá não tem isso, não!”) e subimos os 41 andares que levam ao Cristo Redentor de São Paulo: o Terraço Itália.

Edifício Copan visto do Terraço Itália

Tsk, tsk, tsk. Meia-decepção. O bar do Terraço Itália – com seus vidros até o chão que fazem com que São Paulo fique literalmente a nossos pés – não abre ao meio-dia. Tivemos que nos conformar em tomar um suco no restaurante, onde a visão é prejudicada pela altura do parapeito da varanda. À noite é mais bonito, sem dúvida; mas se o único passeio que você pode fazer é um “São Paulo by day”, então você não pode deixar de vir aqui. Mas cuidado: se for sábado e você não estiver imbuído de sérios propósitos de almoçar em algum outro lugar, você não vai conseguir resistir ao buffet de feijoada-pega-gringo que eles interpõem entre você e a sua mesa com vista.

Eu escondi isso de vocês até agora, mas a verdade é que minha nova amiga estava se queixando do calor desde que desembarcou, quase três horas antes, em Cumbica. Eu tinha acreditado na meteorologia e tinha dito a ela que uma frente fria chegaria à cidade junto com ela. Minha nova amiga foi por mim e veio com uma calça de meia-estação que no Brasil valeria por alto-inverno. A mala já tinha sido despachada para Brasília, e por isso uma passadinha num shopping se fazia mais do que necessária. Se eu tivesse que mostrar apenas um shopping de São Paulo para alguém, eu não inventaria moda e iria direto ao Iguatemi (que, em termos de importância turística, talvez seja a maior atração de São Paulo, acredite se quiser). Mas por motivos práticos, resolvi levar minha nova amiga ao Pátio Higienópolis, que, além de ser pertinho de casa, acabou deixando este post muito mais fotogênico 😉

Shopping Pátio Higienópolis

Depois de um breve pit stop em casa, fiz as contas e vi que seguir o plano inicial seria inviável. O itinerário mais bacana previa uma fuga até o Ipiranga, para um programa perfeito: visitar o museu do Ipiranga e almoçar no La Paillote, que tem o melhor (e mais caro) camarão do planeta. Já eram duas e meia da tarde, e vi que o almoço talvez fosse a última parada de nosso tour. Descartei as outras duas alternativas de pratos autenticamente paulistanos que eu tinha considerado – o polpettone do Jardim di Napoli e o suflê de goiabada com molho de catupiry do Carlota – e decidi que o almoço seria num lugar onde iríamos inicialmente apenas pela vista: o hotel Unique.

O tempo começava a fechar. Desci pela muvuca dos Jardins, costurei pelas ruas arborizadas e repletas de mansões do Jardim Europa (“em Montreal também existem bairros assim, só que as casas não têm muros”, me informou minha nova amiga) e cheguei à nossa melancia-design de estimação, o Hotel Unique. O terraço do Unique oferece o contraponto perfeito à vista do Terraço Itália. (Se você me permite a comparação, eu diria que são vistas tão complementares quanto as do Cristo Redentor e do Pão de Açúcar, no Rio.) Aqui também é melhor vir à noite, quando a área da piscina não está reservada para os hóspedes.

Terraço do Hotel Unique

Mesmo assim, se você pedir com jeitinho ao garçom, dá para ir até a beirada e ver o tapete verde dos Jardins contra o skyline de arranha-céus da Paulista – na minha falsa modesta opinião, a vista mais bonita da cidade.

Jardim Paulistano e Paulista vistos do terraço do Unique

Pedimos o cardápio, e o chef Emmanuel Bassoleil não nos decepcionou: entre os pratos ainda havia o “risotto PF” (na verdade, um baião-de-dois metido a besta) para dar um quê de brasilidade ao momento mais chique do city-tour.

Almocinho tardio no Skye

Na saída, enquanto o manobrista buscava o carro, chamei minha nova amiga para tirar fotos em frente ao hotel – no que fui informado pelo leão-de-chácara que não era permitido tirar fotos da fachada. Cuma? Não entendi. “Desculpe, mas não é permitido tirar foto da fachada”, ele repetiu, educado e firme ao mesmo tempo. E se eu atravessar a rua? “Se atravessar a rua, pode”. E fotografar melancia na feira, ainda é permitido? Brincadeirinha, não fiz essa pergunta. Em represália, atravessei a rua e tirei a foto com a maior quantidade de fiação exposta e outros sinais de Terceiro Mundo que eu pudesse enquadrar. (Se eu não estivesse com pressa, ficaria esperando até passar uma Kombi azul-calcinha.)

Unique, nossa melancia-design de estimação

Saímos do Unique, fomos ao Ibirapuera (passamos do ladinho), fomos à Avenida Paulista (desfilamos por ela todinha), fomos ao Pacaembu (costeamos todo o seu muro) e finalmente pegamos a Marginal Tietê. Deixei minha nova amiga feliz da vida em Cumbica — e voltei pensando nas coisas que não deu tempo de visitar, como a feirinha da Benedito Calixto, a Pinacoteca e o Masp. Não, não dá para ver uma megalópole inteira em 7 horas e 15 minutos. Mas deu para ver coisas que muitos paulistanos nunca viram. Muito obrigado, Ilma. Adorei te conhecer. E espero que você tenha conseguido entender um pouquinho da minha cidade. (Acho que já tenho o nome da minha megaagência de turismo receptivo: Martinelli City-Tours.)

Republicado aos 40 do segundo tempo em homenagem ao aniversário de São Paulo. Obrigado pela lembrança, @elderc!

Leia mais:
Guia de São Paulo no Viaje na Viagem

93 comentários

Eu vou para la no carnaval. Fora esse do camarão mais caro do mundorsss, alguém tem uma dica bacana de restaurantes de frutos do mar (inclusive lagosta hummm)
Obrigada

Adorei..

Espero que a Martinelli City-Tours ainda esteja em atividades te deixando cada vez mais milionàrio.. 😆

Eu fui muito pouco para São Paulo.. que eu me lembre, 4 vezes.. e NUNCA fiz um Tour tão Paulista.. 😳

Mas jà foi para a listinha dos lugares obrigatorios para ir quando colocar meus pezinhos no Pais Tropical.. pq so fazer conexão para Floripa ou POA não vale..

=)

Riq, um casal de amigos alemães nos visitaram em dezembro e fiz um roteiro bastante parecido com eles. Mas a visita turística valeu para mim também, mais nova moradora de SP, que não conhecia Terraço Itália nem Copan, etc. Foi ótimo fazer com eles o contraponto entre Higienópolis e 25 de março. Nada como mostras as várias SP dentro de SP.

p.s. No dia em que fomos ao Itália estava aberto ao meio-dia e nos deixaram ir do lado de fora para fazer fotos, sem barreiras de vidro. Porém, quem não almoça tem que pagar 15,00 por pessoa. E como nossos planos eram de comer sanduíche de mortadela, pagamos a tal taxa. Tentamos bancar os espertos e ver se era possível apenas consumir um suco para não pagar a tal taxa, mas não rolou, o consumo mínimo do restaurante é de 15,00 também.

passo meus carnavais todos os anos em SP (só ano passado que eu trabalhei e não pude ir).
Os restaurantes não estão lotados, as ruas não estão abarrotadas e tem sempre uma chuvinha no carnaval pra você pensar que está na terra da garoa.
Se quiser, tem carnaval de verdade, se não, tem festa também. Não perca o Masp, aproveite que na terça-feira é de graça.

Bom, como paulistano em pleno ostracismo (faz mais de 30 anos) eu incluiria com certeza uma visita numa típica feira de rua para comer pastel com garapa, o bairro da Liberdade e, lóóóógico, o Parque São Jorge, a Meca da nação corintiana.

Eu já pensei várias vezes em tirar um feriado para “turistar” em São Paulo. Não sei porque ainda não coloquei meu planos em prática… Agora a vontade voltou! E eu não conheço nada, então não vão faltar atrações. 😉

Riq, o Maurício, como todo arquiteto ama o centro e conhece a história desses prédios todos. Sempre vamos ao centro, onde, antes de casar, tinha passado apenas poucas vezes (e olha que sou paulistana da gema, nascida e criada aqui, rsrsrs). Eu adoro fazer esse city tour com o meu personal-guide. Acho a Catedral da Sé lindíssima e assistir uma missa lá, dá uma paz incrível, para católicos ou não. Mas São Paulo é única: todos os dias a xingo, reclamo do trânsito, das filas e do comportamento de “gado” do paulistano, mas é certo que nunca estive em nenhuma cidade parecida com ela. Adorei o texto.

    E quanto ao famoso sanduíche…sabe que eu nem gosto tanto de mortadela assim? rsrsrs
    Riq, faltou levar sua guest para a Vila Madalena, que eu acho super “turística”.

    Eu sou paulistana fanática! todos os dias xingo a chuva, o trânsito, os ambulantes, o povo mal educado que joga lixo no chão… mas como amo essa cidade!!!
    Eu trabalhei por mais de 2 anos na Libero Badaró com uma vista espetacular do Martinelli, q tb é um dos meus preferidos…
    Agora tenho que me contentar com o prédio da Fiesp, na av. Paulista.. o bichinho estranho, viu?!
    bjs

Camarada…

Eu senti como no meu primeiro dia em São Paulo, ao menos até metade do texto sim, quando você começou a sofisticar eu me perdi todo, até o sanduba de mortadela eu acompanhei, agora o camarão mais caro do mundo, é contra minha religião (custo&beneficio) sem falar que por incrível que pareça não gosto do fruto do mar, claro. Foi do meio para o fim que então percebi que São Paulo ainda tem muito para me mostrar.

Eu amo muito toda essa São Paulo, coisa de nordestino é sempre assim, um dia vou morar em São Paulo, e apesar do Rio ser naturalmente mais belo não me sinto tão atraído como por São Paulo, será que é porque é a cidade que tem mais administradores da America Latina? “E apoi”