Um turista em Brasília

Palácio do Planalto, Brasília

Originalmente publicado em agosto de 2005 na Época

Generalizar é humano. Groucho Marx, por exemplo, já dizia que são os maus políticos que estragam a reputação dos outros 10%.

Os brasilienses reclamam, e com razão, que Brasília e seus habitantes são confundidos com os políticos que lá estão. Como se a vida na capital fosse uma eterna festa no último andar do Hotel Grand Bittar. E como se os políticos que foram para lá não tivessem sido eleitos pelos outros 26 estados da federação.

Fiquei pensando nisso porque na semana passada dei um pulinho até Brasília. Fui fazer uma palestra. Fiz questão de chegar cedo, para poder passear um pouquinho.

Mapa de Brasília

No mapa do guia que levei, a Asa Norte fica à direita da Asa Sul. No mapa que peguei no quiosque de informações turísticas no aeroporto, a Asa Norte fica à esquerda da Asa Sul.

Então eu preciso parar e dizer: gente, em mapa nenhum do mundo o norte está à direita ou à esquerda do sul. Norte que é norte fica em cima, sul que é sul fica embaixo, e fim de papo. Depois reclamam que o presidente — qualquer um deles — não sabe para onde está nos levando.

Cartografia à parte, movimentar-se pelo Plano Piloto é como andar de bicicleta: pegar o jeitinho é difícil, mas, depois que você aprende, não esquece nunca mais. Morei em Brasília quando era criança, na década de 70 Voltei só uma vez, num feriadão de 1990. Aluguei um carro e… não me perdi em momento nenhum.

Brasília, imediações da Rodoviária

Agora foi a mesma coisa. Peguei o carro no aeroporto, segui reto, respeitei a velocidade indicada, e em 17 minutos estava no ponto mais central de Brasília, a Rodoviária. Alguma coisa acontece no meu coração, que só quando cruza o Eixo Monumental com o Eixo Rodoviário.

Deixei a mala no hotel e fui atrás de minha infância: passei nas duas quadras em que morei. (No meu prédio da 303 Sul morava um garoto muito chato chamado Renato Manfredini Jr. Só muito depois de ele ficar famoso vim a saber que aquele garoto chatinho tinha crescido para se tornar o grande Renato Russo.)

SQS 303, Brasília

Poucos turistas se embrenham pelas superquadras da Asa Sul. É uma pena. Podem falar que não tem esquina. Podem falar que falta gente nas calçadas e ônibus nas ruas.Mas é lindo. É muito mais bonito do que há 30 anos. Que outra grande cidade do Brasil pode dizer que estámais bonita hoje do que há 30 anos?

Eu queria muito subir no pilotis do Congresso. Fiquei triste ao ver que não é mais permitido: chegaram a pôr grades nos acessos laterais que eu usava quando era pequeno (na época dos milicos, dava para brincar à vontade ali em cima; cansei de tentar escalar o Senado).

Brasília, Congresso Nacional

E quem disse que o govenro não está empenhado nas reformas? Estive no Alvorada e vi com meus próprios olhos: dezenas de operários, de macacão laranja, trocando vidros e fazendo reparos nas colunas de Niemeyer.

A última parada do dia, como não poderia deixar de ser, foi na nov Ponte JK. Aquela, com o desenho da curva descrita por uma pedrinha atirada no lago. Linda. E o que é melhor: você olha para ela, e nem pensa em política. E, se pensar, vai ser no Gabeira, não no Severino.

Brasília: Ponte JK

Não, não passei meu dia brasiliense em estado de total alienação. Depois da palestra, encaminhei um pedido à organização: eu queria que tudo terminasse em pizza. E assim se fez. Massa fina, cobertura de shiitake e alho-poró, numa mesa posta na calçada de uma quadra muvucada.

Brasília

Servido?

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79 comentários

Para minha Brasília querida, eu recomendo:

1 dia – Esplanada dos Ministérios:
Praça dos Três Poderes, com os Palácios do Planalto (Sede da Presidência da República), Palácio do Supremo Tribunal Federal e o Congresso Nacional. Desça as escadas na Praça e conheça a maquete gigante de Brasília, com fotos e maquete para deficientes visuais. Ande até o Palácio do Itamaraty, onde poderá ver um acervo de arte brasileira e estrangeira genial, além da sua arquitetura de concreto aparente. Depois atravesse a rua, sente um pouco embaixo das árvores a aprecie a imensidão e o céu azul. Veja o Palácio da Justiça com sua cascata maravilhosa, e pegue folego para andar até a Catedral. Lá tire fotos e se quiser assistir uma missa as 12hs, fique a vontade. Depois ande até o Museu Nacional de desfrute desse edifício projetado na década de 50, mas construído recentemente. Poderá ainda entrar na Biblioteca Nacional e descansar um pouco. Passe na Rodoviária, coma um pastel da Viçosa com caldo de cana. Aproveite para ver o jeitinho dos brasiliense. Aqui é o centro da cidade mesmo. Depois vá a Torre de TV e suba para ver a cidade de cima. É gratuito e maravilhoso. De lá poderá apreciar toda a Esplanada e o outro lado do Eixo Monumental. Poderá ver o Parque da cidade e o Setor de Hotéis. No Eixo Monumental ainda é possível conhecer o Museu do Indio, o Museu Juscelino Kubitschek e a Igrejinha Rainha da Paz. Se as pernas ainda tiverem pulsando, o Setor Militar Urbano é “próximo” com lugares para descansar e aproveitar a paisagem do cerrado.

2 dia – SuperQuadra 107/307 – 108/308 Sul
Pegue um ônibus de qualquer lugar que você esteja para a W3 Sul. Acompanhe as placas das quadras e desça do ônibus na altura da 507/508. Lá você já poderá ver o Espaço Cultural da 508 Sul, lugar incrível com grafites e exposições de arte. Ao lado dele verá a Escola Parque da 308 Sul. As escolas Parques são um grande projeto educacional. Ande pela quadra e aprecie os prédios de pilotis livre, os cobogós (solução arquitetônica para melhorar o sistema de ventilação dos edifícios) e paisagismos de Burle Max. Ao descer no sentido oeste, verá a Capela Nossa Senhora de Fátima, conhecida por Igrejinha. Com azulejos de Athos Bulcão é uma obra prima da arquitetura modernista. Aqui, aproveite para comer na parte comercial, uma pizza na Pizzaria Dom Bosco, super tradicional na cidade. Senão, pode almoçar no restaurante Xique Xique que serve comida nordestina, com carne de sol, mandioca, paçoca, etc… Se tiver mais a noite, poderá apreciar o melhor cachorro-quente da cidade, com direito a pasta de alho e pasta de atum que fica ao lado da Igrejinha. Visite o cinema, Cine Brasília, que já fica próximo do Eixo Rodoviário. Se o fôlego estiver grande, suba em direção a W3 e ande até o Parque da Cidade. Lá poderá descansar, ver o ritmo de saúde da cidade e tomar uma água de coco. Ainda é possível ir até o Conic (lugar mais underground de Brasília), no centro da cidade, ao lado da rodoviária, ver as lojinhas de música, de roupas alternativas, de tatuagens, a Galeria de Arte da Faculdade de Artes Dulcina de Moraes e comprar doces e balas nas lojas atacadista.
A noite, vá descontrair e conhecer o mais velho e tradicional restaurante da cidade, o Beirute. Na 109 Sul ou na 107 norte, ambos servem comida árabe e brasileira e possuem sua cerveja de própria autoria, a BeiraBier. É um restaurante conhecido por respeitar a diversidade das sexualidade e ponto de encontro de artistas.

3 dia – Palácio da Alvorada, Ponte JK e Ermida Dom Bosco
Aqui a locomoção já fica mais complicada, mas nada que você não possa aproveitar a cidade com um bom amigo/a brasiliense que possua carro ou um taxi. De manhã, pode conhecer o Parque Nacional Agua Mineral, aproveite para fazer trilhas, tomar banho de piscina e ver os macaquinhos saltitando de uma árvore para outra. Depois poderá almoçar na Vila Planalto, onde há diversos restaurantes com comida brasileira. Se quiser gastar um pouco mais, poderá comer a melhor muqueca de peixe no restaurante Ki-mukeka que fica próximo ao Bay-Parque.
O Palácio da Alvorada tem visitas guiadas as quartas-feiras, as 14hs. É um passeio com uma experiência arquitetônica incrível e a possibilidade de conhecer mais de perto a Residencia oficial da Presidência. Depois aproveite para conhecer a Ponte JK. Recentemente construída oferece para o lago Paranoá uma nova experiência visual. Perto dela há o Centro Cultura Banco do Brasil – CCBB, com arquitetura de Niemeyer e que normalmente oferece exposições de arte e cinema de ótima qualidade. Depois cruze a ponte e aprecie o pôr-do-sol na Ermida Dom Bosco, um lugar tranqüilo a beira do lago.


Ricardo freire, lindo post sobre Brasília.

    Belo roteiro!

    Sobre a praça dos Três Poderes, lá está também o Panteão da Pátria, aquele prédio em forma de pomba modernista. É um ótimo exemplo de tudo o que se pode fazer de errado em um museu/memorial: é escuro, desgradável, é carpetado e cheio de cortinas (ótima pedida para ativar algumas alergias) e tem quase nenhuma informação visual, só o “livro de aço dos heróis da pátria” no salão principal. Um memorial aos heróis nacionais é uma boa ideia, mas muito mal executada. O oposto, por exemplo, do ótimo Memorial JK, quase na outra ponta do eixo Monumental.

Presente! Não sou daqui mas vim para ficar.
Brasília está lindíssima! Talvez o turista não caia de amores. Não tem praia e Brasileiro quase que não vive sem praia mas é delicioso morar aqui. Em que outra cidade grande dá pra vir almoçar em casa todos os dias?
Na época mais feinha do ano(seca) ainda temos os Ipês.
Lindo post!

Ele podia ser chato, mas estava certo em uma coisa: “Nesse país lugar melhor não há…” Pode ser coisa de um brasiliense apaixonado, mas muita gente que veio meio que sem querer, acabou ficando. Sensacional o post, que apesar de ser antigo é bem a realidade atual.

que lindo ouvir palavras tão doces da minha cidade querida! no geral as pessoas que não são de Brasília tem o péssimo hábito de detestá-la, às vezes até, sem nem conhecê-la… E muitos que dizem conhecê-la sequer saíram do aeroporto 😛 é preciso um pouquinho de paciência para que ela se mostre bela realmente, mas vale a pena o processo :mrgreen: e que notícia estarrecedora vc já ter morado em Brasília e ter sido “amiguinho” do chato do Renato Russo (só pra comprovar que ele sempre foi chato – só cresceu e ficou grande!)

O tal Renato Manfredini, pelo visto, continuou chato. 🙂 Na última foto, não se vê O Globo, o Estadão, a Folha e outros, mas vê-se o JT. Hoje em dia ele não deve mais nem circular em Brasília.

    Alexandre, o chato, citado na crônica, é o garoto Renato Manfredini Jr., não o pai Renato Manfredini.

Riq
Já tinha lido esta cronica também, republicada aqui(em algum momento, acho). Que legal vc re-republicar as mais votadas!

Teremos o dia livre em Brasília na quarta de cinzas voltando da Chapada , dicas serão bem vindas , onde almoçar o que é imperdível…obrigada!

    Fabiana,
    Tantas coisas por aqui são imperdíveis… Nem dá pra te dizer onde ir num dia só… Mas talvez seja bacana almoçar no Oliver, dentro do clube de Golf – coma a paella ou o risoto cítrico de camarão ou o bacalhau a zé do pipo… De lá vc pode atravessar a rua e ir ao CCBB, que está expondo um pouco da sensacional obra da Mariko Mori. Aí, se puder, dê uma esticadinha à Ermida Dom Bosco, pra ver o pôr-do-sol…

    Fabiana, nem precisa ir tão longe ver o pôr-do-sol, se for o caso, fique por ali pelo Pontão do Lago Sul, onde a vista é ótima e tem diversas opções gostosas e charmosas de barzinhos e restaurantes (recomendo o BierFass para um choppinho, acho q a Devassa ainda não inaugurou!). Durante o dia aproveite para dar uma volta na feirinha da Torre de TV. Se quiser outras opções para almoço (pq acho o Oliver um padrão mais altinho) sugiro o gostoso Club Natura ao lado do Pier21. Um ótimo café pode ser tomado no Grenat Café (201 sul, Bl. A) e um chopp descontraído com cara de RJ você tem no Mercado Municipal na 509 sul (W3). se precisar de outras ideias é só falar!

Adorei o texto! Sou brasiliense e adoro essa cidade de gente estranha (isso é fato), mas de arquitetura fantástica, ruas largas e um clima que , por mais que falem mal, é uma delícia! A cinquentona mais charmosa de todas!

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