Utzon, o fantasma da Ópera

Ópera de Sydney

17 de janeiro de 2005. Em 1957, um jovem arquiteto dinamarquês chamado Jørn Utzon se inscreveu no concurso mundial que escolheria o projeto para a nova Ópera de Sydney. Quando seu projeto foi escolhido, ninguém poderia imaginar que o prédio viria a se tornar o símbolo de Sydney, o ícone maior da Austrália e provavelmente o edifício moderno mais fotografado do planeta.

Não, quem diz isso não sou eu – é Louise, a simpaticíssima guia do tour de uma hora pelo interior do prédio. (Aliás, dos prédios – só de perto é que a gente nota que a Ópera de Sydney é formada por três edifícios: um teatro maior, um menor e um restaurante.) Louise é bonita, carismática e sincera: não esconde nenhum dos podres da história para nós, que pagamos 25 dólares australianos (50 reais) por cabeça e queremos saber tudo, tintim por tintim. Sentados na galeria do teatro principal da Ópera, somos informados que, uma vez escolhido o projeto arquitetônico, se passaram alguns anos até que todos os detalhes de engenharia e acústica pudessem ser resolvidos. Nesse meio tempo, a oposição venceu as eleições para o governo de Nova Gales do Sul – e os novos mandarins, achando o projeto muito caro, resolveram meter o bedelho e cortar custos aqui e ali.

Contrariado, Utzon apresentou uma carta de demissão – achando que não seria aceita. Mas foi, e o projeto foi acabado por uma comissão de engenheiros australianos que desfigurou bastante os interiores desenhados por Utzon. O dinamarquês não veio à inauguração do prédio, em 1973 – e nem depois, por mais que tenha sido convidado. Há coisa de dois ou três anos o governo australiano voltou a manter contato com Jørn Utzon, e ele aceitou fazer um projeto de reforma dos interiores da Ópera. Um desses ambientes já está pronto – um pequeno foyer, com vista para a baía, batizado com o nome do arquiteto.

O engraçado é que só quando você entra nesse ambiente, de chão de madeira crua e teto sem forro, com todas as estruturas aparentes, é que você percebe a breguice dos carpetes e acrilicos de (alguns dos) outros ambientes. Mas nem depois de fazer as pazes com o governo Utzon se digna a deixar sua casa em Maiorca, na Espanha, para visitar seu filho mais famoso. Segundo Louise, ele alega medo de avião – uma desculpa deveras niemeyeriana. A propósito – se de longe a Ópera parece um veleiro, um pássaro ou um trailer do Guggenheim de Bilbao, de perto a gente não em como não pensar numa Pampulha gigantesca.

Na sua recusa em visitar Sydney, no entanto, o dinamarquês se revela bem mais profissional que Niemeyer: Jørn Utzon acredita que um prédio só é bonito de verdade quando você tem prazer de entrar nele.

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10 comentários

Belíssimo post Riq. Também fiz esse passeio por dentro do Sydney Opera House, que é belíssimo. Infelizmente, John Urtzon faleceu em 2008. O velório foi feito dentro do Sydney Opera House. Hoje o responsável pela obra de arte é o seu filho, que também é arquiteto.

Como é gostoso ler estes posts do passado. Leio tudo de novo e me divirto de novo. Nessa época, acho que você tinha mais tempo para escrever, estou certo?

    Pior é que não, Jorge! Pense que eu tava viajando numa época de internet e computadores lentos! Era pesado sacrificar umas horas do dia pra ir a um cybercafé e blogar, transferindo imagens por CD… digamos que o Nick não curtia muito :mrgreen:

Riq e tripulacao voces teriam sugestoes de hoteis bbb em Sydney? Minha filha faz intercambio em Brisbane e pretende ir pra la no fim de semana. Agradeco a todos e se tiverem dicas pra conhecer a ciade em dois dias…

Adorei a história da Utzon e do seu projeto, a Ópera de Sydney, em a Bahia de Jackson.
A história e como os contos infantiles repletos de anedotas para manter fresca a imaginação e deixar voar aos sonhos.
Utzon, o fantasma da Ópera!!!

É uma historinha muito parecida com a que anda acontecendo aqui no Rio com a Cidade da Música: apesar de detestar a administração que contratou sua construção e ser um projeto polêmico pelos custos e proporções faraônicas, acho que a idéia é maravilhosa (como a cidade; e o rio precisa e merece um lugar que ofereça o melhor da música para ouvir, estudar, apresentar, discutir, ensinar e adornar ainda mais nosso balneário 🙂

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