Viajando com Olivia Byington

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Quanto você pagaria por um cartão postal antigo, da London Bridge, manuscrito e assinado por Tom Jobim e enviado de Londres para o sogro no Rio? Olivia Byington achou um postal assim outro dia na feirinha de antigüidades da Gávea e levou para casa por… 1 real.

Claro que você precisa conhecer a caligrafia de Tom Jobim e saber que aquele ARTUR HERMANNY em maiúsculas na linha do destinatário era pai da sua primeira mulher, Teresa, para então juntar com a saudação “Querido sogro” no alto do texto e finalmente reparar no T o m que assina lá embaixo — três letras tentando encontrar algum espaço entre os dizeres legais do fabricante e a borda do papel, quase caindo fora do cartão.

Duvida? Olivia Byington mostra o postal para você. Basta você ir ao seu deeeeliiiiciiiioooooso show Cada um, cada um que, lá pelas tantas, antes de cantar duas canções do amigo, ela conta essa história e passa o postal para ser manuseado por todo mundo que está na sala.

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“Na sala” não significa só o pequeno teatro em que ela se apresenta até o próximo domingo, o Espaço Viga. O cenário do show sugere uma sala de estar; um terço das cadeiras da platéia se espalha sobre o palco — em torno dos tapetes que Olivia comprou no Marrocos, dos livros que tirou da própria biblioteca e dos objetos que temporariamente estão desfalcando sua casa na Gávea. É nesse ambiente que Olivia vai compartilhando canções e histórias; não demora muito para você deixar de ser platéia e virar visita.

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Apesar de ter lançado um (lindo) disco recentemente, Olivia faz do show um apanhado de sua carreira. Para o fã (presente!) é uma rara oportunidade de matar a saudade de canções clássicas como Lady Jane, de Olivia e Geraldo Carneiro, sucesso radiofônico na outra encarnação, e Clarão, parceria dela com Cacaso — que, apesar de ter morrido já há vinte anos, deu um jeitinho de incluir duas estrofes inéditas recentemente (essa eu deixo para a Olivia te contar).

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Do CD mais recente — feito quase todo de parcerias suas com o poeta português Tiago Torres da Silva, que escreveu belas letras em brasilâiro — Olivia pinça as canções mais delicadas; entre elas, “Todo par”, com versos do meu grandjamigo de infância (tá bom: de adolescência) Marcelo Pires.

Caetano Veloso ganhou um medley inusitado (questão de ordem: duas canções já caracterizam um medley?), combinando Alguém cantando com Muito romântico. Do disco que fez em homenagem a Aracy de Almeida, Olivia escolheu as duas músicas mais divertidas, Não tem tradução, de Noel Rosa, e Uva de caminhão, de Assis Valente. Nesse momento, por sinal, Olivia prova que Assis Valente era tipo assim a Tati Quebra-Barraco da sua época. (De novo, deixo para a Olivia explicar ao vivo.)

Eu tinha ido preparado para pedir, mesmo que em vão, Mais clara, mais crua, no bis. Para quem não liga o nome à canção, trata-se de Palhaço, de Egberto Gismonti, do jeito que foi originalmente concebida, com letra de Geraldo Carneiro. Olivia tinha gravado no primeiro disco, com aquela sua voz sobrenatural de bachiana número cinco.

Eu ia pedir a música, mesmo pressentindo que não seria atendido. (Sabe aquele fã que se esgoela pedindo uma canção que não foi ensaiada e é difícil demais para ser tocada? Às vezes sou eu.)

Pois não é que, antes de encerrar o show, Olivia anuncia que vai cometer a insensatez de tocar ao violão uma canção de Egberto Gismonti que quase ninguém sabe que tem letra? E então nos presenteia com Mais clara, mais crua com… ahn… bem, com aquela voz sobrenatural de bachiana número cinco.

Atualização: achei este vídeo, não sei até que ponto pirata, no YouTube. Enquanto Olivia fala o som está baixinho, mas quando começa a tocar e cantar o som fica bom.

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=5vzd1ta8jIg]

Fiquei tão emocionado que nem atinei de pedir Bilhetinho azul do Cazuza na hora do bis.

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Olivia Byington fica mais um fim de semana em São Paulo — sexta e sábado às 21h, domingo às 19h. Chegue cedo e pegue uma das cadeiras da sala, digo, do palco, sim?

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13 comentários

O show é tudo de bom e a Olivia uma delicia de pessoa. Me senti na “sala” da casa dela sentado no chão e ouvindo historias musicadas. Sorri e chorei com ela. Bjs

Hm… Esse show é mesmo maravilhoso. Algumas observações:
– “Mais Clara, Mais Crua” é do 2º LP, “Anjo Vadio”.
– “Lady Jane” é do Nando Carneiro e Geraldo Carneiro, a Olívia chegou a cantar essa música num dos shows da Barca do Sol, aos 14 anos.
– Ah, você esqueceu de dizer que ela passa também um poema escrito a mão pelo Cacaso, numa folha de caderno…
Abraços!

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