VnVintage: Manifesto Viajandão

Viaje na Viagem, 1998

Do baú: este é o primeiro capítulo do “Viaje na Viagem” de papel, publicado em 1998.

Curiosidade: todo mundo diz que a coisa mais difícil de um livro, sobretudo de um primeiro livro, é a primeira frase. Eu não tive essa dificuldade. Mas não por mérito meu. Conversando sobre o livro com a Pinky Wainer, que foi minha editora nesse trabalho, eu falei em algum momento “toda viagem é uma extravagância”. Ela parou tudo e disse: ESSA é a primeira frase do livro!

O resto então ficou fácil :mrgreen:

Toda viagem é uma extravagância.

Seja você pobre, remediado ou rico, viajar sempre significa viver temporariamente muito além de suas posses. Esse é o barato — e o caro — de qualquer viagem. Multiplicando a diária do seu hotel por 30 você vai ver que na vida real nunca poderia pagar isso tudo de aluguel. Basta computar seus gastos diários com refeições para ter um treco imaginando quantos supermercados a mais daria para fazer no mês. Você pode até já ter se acostumado com o preço das passagens aéreas, mas se calcular quanto custa a hora afivelado naquela poltrona, você vai querer que uma máscara de oxigênio caia automaticamente do compartimento acima de sua cabeça. E isso vale para todo mundo. Metade da primeira classe deveria viajar na executiva, grande parte da executiva deveria estar na econômica, e a econômica inteira deveria ter ficado em casa.

Mesmo assim, viajamos.

Viajamos para fugir de tudo. E para ter saudade de casa. Viajamos para descansar. E para voltar mais cansados do que fomos. Viajamos para nos livrar das obrigações de todo dia. E para ter a obrigação de visitar dois museus e três monumentos todo dia. Viajamos para experimentar coisas diferentes, e para ter dor de barriga. Para comprar o que não precisamos e pagar com o que não temos. Para entrar em igreja e andar de metrô. Para não entender os outdoors, para desobedecer alto-falantes e para nos equivocar com cardápios. Para gentilmente pedir a desconhecidos que tirem fotos que depois vamos obrigar os conhecidos a ver. Para investigar se os McDonald’s que lá gorjeiam não gorjeiam como cá. Para fazer extensos tratados sociológicos sobre povos estranhos já no primeiro dia de estada. Para na volta ter quilos de histórias para contar e toneladas de quilos para perder.

Nada é tão motivador como a possibilidade de viajar. Na expectativa de uma viagem, pedidos de demissão são engavetados, casamentos são prorrogados, filhos são adiados. Em casos mais extremos, casas próprias deixam de ser compradas, carros escapam de ser trocados, videocassetes se conformam com menos cabeças que o do vizinho. Tanto sacrifício tem uma recompensa garantida: pouco a pouco você vai se tornando um sujeito “viajado”. E não existe nenhum adjetivo mais charmoso, nenhuma qualidade tão sem contra-indicações quanto ser “viajado”. Ser viajado é mais simpático do que ser “culto”, mais interessante do que ser “inteligente” — e quase tão bacana quanto ser “rico”.

Mas ninguém viaja por interesse. Até porque, depois do sexo, viajar é a diversão interativa mais antiga de que se tem notícia. Além de serem as duas coisas mais prazerosas da vida — e funcionarem esplendidamente em conjunto — sexo e viagem compartilham inúmeras outras semelhanças. Não importa o que digam os interneteiros, o certo é que ambos só se realizam plenamente ao vivo. Um costuma durar pelo menos 30 minutos, a outra pode durar até 30 dias, mas a sensação é que tudo passa depressa demais, não foi? É bom quando é inesperado, tem seu valor quando é rapidinho, há quem goste quando não existe compromisso. Porém, assim como no sexo, nada faz tão bem a uma viagem como a combinação de três fatores:

• desejo;

• envolvimento;

• preparação.

A viagem acalentada, cortejada, paquerada (quanto mais difícil, melhor), carinhosamente pesquisada (uma espécie assim de namoro), com uma preparação dedicada e minuciosa (o equivalente das preliminares), sem dúvida dá muito mais satisfação — e uma satisfação mais duradoura — do que aquela viagem que você mal conheceu e já quer levar para o aeroporto.

A idéia deste livro site é fazer sua viagem começar muito, mas muito antes do check-in. É trazer a “viagem” da viagem para os trezentos e tantos dias do ano em que você não está viajando. Como? Mostrando como você pode acalentar, paquerar, pesquisar e preparar sua viagem, e tirando o máximo proveito de tudo isso. Rentabilizando sua extravagância. Evitando micos. Recompensando seu sacrifício. Ajudando você a ser mais “viajado”. E, principalmente, aumentando seu prazer em viajar.

Bem-vindo a bordo.

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70 comentários

Riq, foi ótimo você fazer a gente voltar no tempo com o VnV. Foi com ele que eu aprendi a arrumar calça comprida na mala. E me identifiquei com tantos trechos… especialmente aquele sobre a mala que a gente compra no desespero da arrumaçao da véspera da volta 🙂

Uau!! eu me sinto realmente “bem-vinda a bordo”! e digo com muito carinho que, apesar do desejo incontrolável de sair por aí viajando estar nas minhas veias desde sempre, foi aqui que tudo começou a tomar mais corpo!! obrigada Riq e todos os queridos trips :mrgreen:

Todo o VnV em celulose é ótimo. O nosso está bem surradinho, de tanto ser lido e relido, e cada vez parece ser a primeira.

Eu nunca tinha lido esse texto (não tenho esse primeiro livro…) e fico extremamente feliz q vc o tenha resgatado aqui. É MUITO bacana. Perfeito mesmo. Estou adorando esse momento VnVintage. 🙂

Beijão.

obrigado pelos momentos de alegria e de frouxos incontroláveis de riso enquanto corri meus olhos por estas lindas palavras. bjos.

“…,videocassetes se conformam com menos cabeças que o do vizinho,…”

Gente, em que ano o DVD foi inventado? 🙂

Excelente livro, nem tem muito que falar.

    Ri litros nessa parte!! Sensacional o post! Daqueles para colocar na parede e ler toda hora!!

Além deste ótimo texto, outro material vintage do qual me recordo sempre são as “tiradas” autorais no Freire’s Praias.

Foi lendo o tal livreto que tomei consciência da campanha anti-cadeira de plástico, e de coisas como (posso estar ligeiramente enganado no ipsis literis:

– “pousada com síndrome do quarto de empregada”
– dos balneários “semi-urbanizados ou semi-abandonados, dependendo da sua perspesctiva”
– do “depois de descobrir que nem toda praia deveria virar um Guarujá, começam a aprender que nem toda praia precisa se tornar como Porto Seguro”-
– as praias que são sua praia “se você frequenta a Rua Amauri” mas que não são sua praia “se você não quer encontrar as pessoas que frequentam a Rua Amauri”

A lista é grande hehe.

O texto é ótimo e não diz nada além da verdade: fazemos um monte de coisas que não faríamos se ficassemos em casa… por isso mesmo é que a gente acaba viajando de novo!

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