Buzum (minha crônica no Guia do Estadão)

Ricardo Freire
por Ricardo Freire

Buzum na Bahia

“Senhores passageiros, bom dia. Meu nome é Fredson, e eu irei conduzi-los hoje até Ilhéus, com paradas.” Estou no terminal rodoviário de Bom Despacho, na ilha de Itaparica. Tratando-se de Bahia e de rodoviária, Bom Despacho soa como uma dupla piada pronta. Não ria, porém. O esquema funciona que é uma beleza.

É em Bom Despacho que aportam os ferry-boats que vêm do terminal de São Joaquim, em Salvador. A cada ferry (ou, com sotaque, ferribôtchi) que chega há uma fartura de ônibus com conexão imediata para todos os povoados da Costa do Dendê e para algumas cidades importantes do interior, como Jequié e Conquista.

Comprei minha passagem de ônibus do trecho Bom Despacho-Valença pela internet e, sulista estressado, acabei embarcando um ferribôtchi antes do necessário. Bobagem. Mesmo que o ferry atrase, os ônibus vão esperar os passageiros. Se tivesse embarcado no horário certo para o meu ônibus, teria viajado no Ivete Sangalo, o mais rápido e moderno dos ferribôtchis.

(Não é apelido, não. É nome. Está escrito na proa. Entre os ferries mais antigos há um Maria Bethânia.)

A hora e pouco que fiquei esperando pelo ônibus da minha companhia, porém, passou rápido. Um dos bares da rodoviária exibia um combo pirata dos especiais de fim de ano de Roberto Carlos – incluindo o programa das cantoras e o Globo Repórter.

“Este veículo possui seis saídas de emergência: quatro nas laterais e duas no teto.”

Confesso que não gostei da informação. Me soou mais aflitiva do que “máscaras de oxigênio cairão à altura de suas cabeças”. Felizmente o percurso de 1h45 até Valença oferece poucas oportunidades para o passageiro precisar escapulir pelo teto.

“Faremos uma parada de almoço de meia hora em Camamu. Nosso tempo de viagem até Ilhéus é de seis horas e meia. Que Deus nos acompanhe.”

Meu ônibus, da companhia Águia Branca – a única que vende pela internet --, além de motoristas educados e treinados como o Fredson, tem ar condicionado e poltronas confortáveis. Só tem um defeito: não vai até Itacaré pela estrada nova, que poupa uma grande volta até Ilhéus.

Acabei fazendo esse trecho entre Camamu e Itacaré dois dias mais tarde – com outra viação, a Cidade Sol. O ônibus não tinha ar condicionado e o motorista não mencionou a serventia dos basculantes no teto. As janelas, todas abertas, turbinavam a brisa natural da Bahia.

E eu pensava: carro, pra quê?

4 comentários

Mari Campos
Mari CamposPermalinkResponder

Meu, saudades da Bahia! Depois do Mexico de Bumba, esse Bahia de Buzum tambem vai virar marco wink

André Lot
André LotPermalinkResponder

Só vc mesmo Riq. Eu continuo achando ônibus no Brasil algo que, depois de ter minha CNH, devo usar apenas para ir do portão ao avião no aeroporto smile

Não dá, não dá.

Flavia
FlaviaPermalinkResponder

E não se esqueça que, se pegar o Ivete Sangalo, há a classe éxécutiva, com ar condicionado, poltronas confortáveis e lanchonete própria por R$4,90.

E eu acho que nesse verão, ser roots é super in smile

beijos

Mariana "de Toledo" _ @merel

Como pessoa-que-não-dirige-e-nem-pretende, estou adorando essa sua viagem! Principalmente por ser uma pessoa-que-não-dirige-e-nem-pretende-e-adora-a-Bahia. Está dando a maior vontade de voltar.

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