Casa nova (crônica de hoje no Guia do Estadão)

Ricardo Freire
por Ricardo Freire

Nos bastidoresNem te conto. Perto do fim do ano fiquei quatro dias inteiros fora do ar. Quer dizer: eu, não. O meu site. No fim das contas, dá no mesmo, quando você tem sua vida mantida por instrumentos.

Fiquei fora do ar porque estava trocando a cara do site (o jargão é ‘template’). A analogia mais óbvia que pode ser feita é com a reforma da sua casa. Mas não é bem assim. Está mais para a demolição e a reconstrução da sua casa. Para ser mais exato: imagine a sua casa sendo demolida e reconstruída enquanto você está internado na UTI. Assim foi o meu finzinho de ano.

Quem põe uma filial de si mesmo na internet vira uma pessoa 2.0 – uma espécie de zumbi eternamente vagando em busca de conexão. Sabe aquele tal de Second Life, um dos maiores fracassos da internet de todos os tempos? Foi um fracasso porque não é preciso criar um mundo à parte para você ter uma segunda vida. Basta abrir sua própria portinha na rede, e pimba: você vive mais lá do que cá.

Não, não estou reclamando. Sempre que a vida aqui fora está chata a internet oferece alguma coisa interessante. E se você encontrar a sua turma – ou, melhor ainda, for encontrado por ela – a internet pode melhorar sensivelmente a sua vida aqui fora.

Há, porém, um preço a pagar, pelo menos nesses primórdios de vida online. Tudo na internet é instável. Na vida real ninguém corre o risco de destruir o seu apartamento só porque apertou um botão errado. Ou de perder tudo o que está dentro de casa porque não sabe onde pôs a chave. Eu sei, quem mora perto de um rio sempre pode sofrer com uma inundação – esse começo de ano esteve cheio delas. A diferença é que quem tem casa na internet parece estar sempre perto de um rio prestes a transbordar.

Deu certo. Enquanto a minha porção carne e osso estava ilhada num paraíso com internet discada, forças superiores tratavam das mudanças. Magicamente no dia 30 à noite o meu barracão virtual tornou-se uma mansão, com alas e mais alas (muitas delas, ainda desocupadas).

Felizmente consegui mudar de casa sem trocar de endereço. Se você me jogar no Google, vai ver que eu já mantive o mesmo site em cinco lugares diferentes. Chega. (E antes que você pergunte: o arquiteto de motéis é um homônimo.)

Uma amiga acaba de me tuitar para dizer que está faltando água em Boipeba. O que tem de mais? Falta água, mas tem banda larga! Pronto, é pra lá que eu vou.

19 comentários

diogo
diogoPermalinkResponder

Hahahahahahaha, genial!!!!

Zé
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"A diferença é que quem tem casa na internet parece estar sempre perto de um rio prestes a transbordar."

Riq, e o pior de tudo isso é que o você não tinha consciência de que a equipe de demolição/reconstrução da casa nova não sabe nadar! Avi vixe, Maria! lol

Carla2
Carla2PermalinkResponder

Saber nadar não é nada - tem que saber esquiar!! wink

Carla2
Carla2PermalinkResponder

Riq, dá para sentir a sua agonia no texto. Mas sempre com muito humor, claro!! Adorei a crônica!

marcia daskal
marcia daskalPermalinkResponder

Estou em vias de....Será que consigo colocar o site novo no ar? Espero que sim! Aviso quando acontecer. Depois do pânico, aproveite a casa nova!

Gustavo - Viajar e Pensar

Excelente!!!
Fiquei offline por opção 7 dias, depois do Natal. Causou um vazio em minha alma.
Valeu!

nati
natiPermalinkResponder

Posso citar Nietzsche para formular meu elogio??!! “A maturidade consiste em reencontrar a seriedade que se tinha no jogo quando criança.”

Parabéns a toda equipe pelo resultado.

Mari Campos
Mari CamposPermalinkResponder

genial mesmo! E ainda da pra gente se identificar em cada paragrafo - tipo "Quem põe uma filial de si mesmo na internet vira uma pessoa 2.0 – uma espécie de zumbi eternamente vagando em busca de conexão". Yes, that's my life mrgreen

Cristina
CristinaPermalinkResponder

Mari,
eu não tenho filial 2.0 e me identifico pq me sinto culpada qdo não estou de férias se não venho falar com vcs meus amiguinhos wink

LETICIA  Zukovski

Adorei a cronica, Riq.
Queria dar uma dica pros trips(mudando de assunto): o livro "Pé na África", do Fábio Zanini, colunista da Folha. Acompanhava seu blog na época da viagem mochileira prá África, e agora rendeu um livro que eu estou adorando. Fica a dica prá quem quiser saber mais desse continente tao "distante"pros brasileiros, principalmente nessa época de Copa.
Bjo.

MIGUEL ANGELO GOMES

Meu DEUS...
No que estamos nos tornando? Riq daqui a mais 5 anos já parou para pensar quem será você? Será que mais humnao ou mais zumbi? (Risos) Brincadeiras a parte, pior é que nós adoramoosss!

Mas ainda sim, prefiro viajar, blogar é relembrar com estilo!

Meilin
MeilinPermalinkResponder

Muito auspicioso: ano novo, casa nova. O natal/reveillon também não é uma época assim meio...confusa, parece que estamos com obra na cozinha de casa? Mas depois que passa, é uma beleza, dá até vontade ... de morar lá!

Flavia
FlaviaPermalinkResponder

#meldels citada assim? adorei, chéri!!!

E vc tem toda razão: sem conéquissaum eu estaria enlouquecida!!!

E vc tem toda razão II a missão: a vida lá fora sempre melhora quando somos felizes de ter amigos aqui dentro smile

Ermesto, o pato

Concordo com a Flavia..... E vc tem toda razão II a missão: a vida lá fora sempre melhora quando somos felizes de ter amigos aqui dentro

Paula*
Paula*PermalinkResponder

Adorei! Eita...como escreve bem!

Jussara
JussaraPermalinkResponder

Nós que tomamos a liberdade de visitar sua casa desde que ela abriu suas portas, ficamos muito felizes com o progresso. E, acredite, sempre que a vida fica chata é no seu endereço que voltamos correndo para sonhar, sonhar muito e sonhar alto.

Reginaldo Okada - Curtindo o Japão

Mestre Riq, tocou na alma. Também tocou num tema que me fez mudar de vida.

Depois de morar 10 anos num dos bairros centrais de Tokyo, resolvi mudar para o “mato” porque não aguentava ficar o dia inteiro na frente de um computador. Sentia a necessidade de compensar as horas virtuais com atividades analógicas no meio da natureza.

Engraçado o computador, ao mesmo tempo que escraviza, também liberta. Graças à tecnologia digital - e à revolucionária internet - foi possível conciliar o meu trabalho profissional com a vida na roça. Já estou no quinto ano plantando arroz, verduras, frutas e criando abelha entre uma dedilhada no teclado e outra.

O caminho do meio. Senão, a humanidade descamba.

JULIO CORRÊA
JULIO CORRÊAPermalinkResponder

Tenho a impressão de que antes era uma coisa alugada, agora é sua, com escritura e tudo.
abraço

Amélia
AméliaPermalinkResponder

Uau!Além da super cronica, como os trips estão em sintonia!Que astral!!!!Muito bom!

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