Entre Ushuaia e Punta Arenas, pelos fiordes da Patagônia

Ricardo Freire
por Ricardo Freire

Geleira Piloto

A primeira parte desta expedição a Argentina e Chile não poderia ter sido mais adequada ao meu perfil de viajante. (Relembrando: não tenho vocação para caminhar no frio – sou da praia – e durante minha estada por essas bandas estou à procura dos passeios que ofereçam a melhor relação esforço x benefício. Quero as paisagens mais bonitas que possam ser avistadas sem que eu precise me transformar num trekkista sério.)

Pelo canal de Beagle

Durante os sete dias a bordo do Via Australis, indo e voltando entre Ushuaia, na Argentina, e Punta Arenas, no Chile, naveguei ao longo de montanhas altas com cumes nevados; fiquei tête-à-tête com geleiras belíssimas; vi de perto pingüins-de-magalhães, elefantes-marinhos, cormorões e mais aves do que sou capaz de registrar. As excursões a terra firme foram curtas, objetivas e organizadas com precisão cirúrgica.

Na Avenida das Geleiras

Chegava a ser divertido me paramentar para as descidas (botas de trekking; meias grossas; ceroulão; calça de nylon; camiseta de manga comprida; suéter; parka de nylon; luvas impermeáveis; gorro; colete salva-vidas), sabendo que dali a uma hora e meia, duas horas no máximo, estaria novamente à paisana, de banho tomado, sentado confortavelmente numa poltrona de couro, apreciando o fiorde pelas janelas panorâmicas dos salões da popa ou da proa, a bordo de um cabernet sauvignon chileno ou de um bloody-mary preparado com Stolichnaya. Aceita uma Pringle’s?

No porto de Ushuaia

O navio é pequeno, de modo a permitir a navegação pelos braços mais rasos do emaranhado de fiordes sem saída perdidos entre o Canal de Beagle e o Estreito de Magalhães,no arquipélago da Terra do Fogo. São no máximo 140 passageiros, que viajam sob um clima de total informalidade. Trata-se de um “crucero de expedición” que consegue misturar com sucesso excursões em bote salva-vidas com open bar. As horas de navegação são preenchidas com ótimas palestras – ministradas simultaneamente em inglês e espanhol, em salões diferentes – relacionadas ao que vamos ver em seguida: as andanças de Darwin pela Patagônia; glaciologia e aquecimento global; aves patagônicas; a vida dos pingüins.

Darwin na Patagônia

As instalações são confortáveis e, o melhor de tudo, discretas; o navio parece mais um grande iate do que um micronavio de cruzeirão. O banheiro não é minúsculo, e as cabines são arrumadas duas vezes por dia (e aspiradas todas as manhãs). Enquanto está nos canais e fiordes o navio não balança nada; em compensação, é impossível não perceber quando está passando por trechos de águas desprotegidas (o único trecho realmente longo de mar aberto é no caminho do Cabo Horn).

A cabine no Via Australis

Há apenas um restaurante, onde são servidos café da manhã e almoço em sistema de buffet e jantar à la carte (entrada, sopa, um prato principal à escolha entre duas opções, e sobremesa). Os buffets são excelentes; à noite, normalmente eu gostei mais das entradas do que do prato principal. Todas as bebidas estão incluídas; durante o jantar é servido vinho ou cerveja, e o bar também tem destilados, espumante e licores, acompanhados por salgadinhos e azeitonas.

Entradita: centollaCôngrio: prato principalMalditas sobremesas irresistíveis

A equipe é afinada, prestativa e supersimpática. Os guias são biólogos chilenos, fluentes em várias línguas, que se revezam nas palestras e recheiam as expedições de informações pertinentes.

Programación en portugués!

Na hora de descer os passageiros são divididos em grupos (de acordo com os idiomas) e fazem percursos diferentes, de maneira a nunca superlotar um único ponto do local visitado. É tudo muito, muito bem feito: a operação é azeitadíssima, sem lugar para o improviso.

Geleira Pía

Somente uma ínfima minoria dos passageiros faz o circuito integral. Normalmente escolhe-se um dos percursos: três noites (dois dias) entre Ushuaia e Punta Arenas, ou quatro noites (três dias) entre Punta Arenas e Ushuaia. Os dois trajetos, porém, só apresentam duas paradas coincidentes (concentradas num único dia em cada perna). Como embarquei a convite, pude me dar ao luxo de fazer o cruzeiro completo e, assim, comparar a ida e a volta. Leia o relato da viagem, confira as fotos e veja se você concorda com o meu veredicto.

Vista do mirante da geleira PíaPerto da geleira PíaA caminho da geleira Pía

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101 comentários

fernanda
fernandaPermalinkResponder

Olá Ricardo, as comidas são boas? É necessário comprar roupas especiais?
Obrigada,
Fernanda

A Bóia
A BóiaPermalinkResponder

Olá, Fernanda! Quem responde é A Bóia. Leve calçados impermeáveis e casaco estofado com penas, tipo bonequinho da Michelin. Roupa de baixo tipo segunda pele também é interessante para quem sente muito frio.

Luciano
LucianoPermalinkResponder

Devo chegar por uma cidade (Punta Arenas, por exemplo) e quando pegar o cruzeirinho até Usuhaia lá saltar (final) sem voltar mais ao ponto de partida - é isso? Significa chegar por um ponto de avião (Chile) e voltar por outro (Argentina)? Confere?

A Bóia
A BóiaPermalinkResponder

Olá, Luciano! O cruzeiro leva de 3 a 4 dias, não é um cruzeirinho. Você pode fazer o circuito completo e voltar ao ponto de partida, os trajetos são diferentes. Se descer no outro país, terá que voltar de avião do outro país.

Guilherme
GuilhermePermalinkResponder

Qual a forma mais barata de ir de Ushuaia até Punta Arenas? Seria através de barco/navio ou por terra mesmo indo até Rio Gallegos?

Renata
RenataPermalinkResponder

Olá! Gostaria de saber se esse roteiro é adequado para ir com crianças de 8, 7 e 5 anos..
Obrigada!

A Bóia
A BóiaPermalinkResponder

Olá, Renata! Crianças são admitidas na viagem. Algumas excursões podem ser restritos aos maiores. Entre no site da empresa e comunique-se por email.

Enrica Nunes
Enrica NunesPermalinkResponder

Olá Ricardo, não consigo encontrar opções de cruzeiros de Ushuaia à Punta Arenas, somente sentindo Punta Arenas-Ushuaia. Inclusive no site da Australis. Quero me programar para nov de 2020.
Obrigado por tantas dicas maravilhosas

Solange
SolangePermalinkResponder

Minha mãe fez vários cruzeiros pela costa brasileira e por países da América do Sul, eu gostaria que ela conhecesse os fiordes chilenos, ela tem 89 anos, mas tem uma saúde invejável. Vocês acreditam que ela possa fazer este Cruzeiro comigo?

A Bóia
A BóiaPermalinkResponder

Olá, Solange! Sim.

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