Bouvet (minha crônica de hoje no Guia do Estadão)

Ricardo Freire
por Ricardo Freire

No menuzinho da Amazon

Que livro você levava para o banheiro quando era criança? Eu levava o Almanaque Abril. Minha parte favorita era o capítulo dos países, que vinha com a ficha completa de todos os que estivessem representados na ONU.

Produto interno bruto, renda per capita, principais recursos naturais, sistema de governo, estava tudo ali. Mas a informação que importava, para mim, era a capital. Eu sabia as capitais de praticamente todos os países listados. Minha memória RAM era ocupada com dados como “Uagadugu, capital do Alto Volta”. Gostava também de saber as cidades principais, que sempre apareciam com a população entre parênteses. Eu comparava sempre com Porto Alegre (845.000).

Me intrigava porque algumas seleções que participavam da Copa não eram países de verdade. Sempre me pareceu um escândalo que o País de Gales pudesse disputar as eliminatórias e o Rio Grande do Sul não.

Eu já não consumia mais o Almanaque Abril quando os países deram para trocar de nome. Ceilão virou Sri Lanka (já me acostumei), Alto Volta virou Burkina Faso (me senti traído), Birmânia virou Mianmar (me recuso a aceitar). Como se não bastasse, outros não-países, como as ilhas Faroë, começaram a disputar a Copa (e o Rio Grande, nada).

A legião dos países insignificantes só veio a reaparecer na minha vida recentemente, com a invenção das compras pela internet. Toda vez que eu vou comprar num site internacional preciso achar o Brasil num menu de países. E em quase todos esses sites, o Brasil aparece embaixo de uma tal Bouvet Island.

Faz muito tempo que estou para googlar esse fim de mundo. Demorei tanto, que o assunto foi parar no Economist da semana passada. Um artiguinho delicioso tenta definir o que é um país, e traz à baila, entre outros, o caso da ilha Bouvet. Listada até no formulário de pedido de vistos de entrada nos Estados Unidos, a ilha Bouvet é, pasmem, desabitada. Pudera: é uma das ilhas mais remotas da Terra e tem o território coberto por gelo. Ainda assim, tem direito a domínio próprio na internet (.bv) e prefixo de radioamador.

Qualquer hora dessas aparece nas eliminatórias da Copa. Esperem até o Rio Grande saber disso.

48 comentários

Amélia
AméliaPermalinkResponder

E Rometta tem na lista, hem, Zé?

Sylvia
SylviaPermalinkResponder

Já te falei que sinto um baita orgulho desse teu bairrismo ?
Mesmo quando ironico :cool:

Guilherme Lopes

Divertido!

Quando entrei no curso de Geografia, a primeira pergunta que me faziam quando eu falava o que estudava era: Qual é a capital do Afeganistão? (Isto antes da Guerra recente).

E aqui, é verdade essa história que o melhor estado do Brasil, para os gaúchos, é o de Santa Catarina?

Outra coisa: cadê o desempacotando o Rio?

; )

Sylvia
SylviaPermalinkResponder

Hehe Guilherme , é que como vamos pra Santa pegar praia , ficou essa lenda .
Pra quem não sabe, a água do mar aqui no sul é um glaciar que acabou de derreter na praia.

Arthur | Agora Vai

Glaciar ou geleira? wink

Rodrigo Barneche

Glaciar, aqui é quase Patagonia wink

Régis
RégisPermalinkResponder

SC é o melhor Estado porque separa o RS do resto.... A piadinha é meio grosseira, mas como fazer piada e ser politicamente correto??

Muito legal a crônica!! Também adorava geografia...Mas o difícil pra mim é entender aquele monte de paisinhos que se formou depois da queda da URSS e da guerra da Iugoslávia...

Ricardo Freire

Em maio no ar!

Marcie
MarciePermalinkResponder

Tão bom quando eu consigo ler no jornal e não preciso esperar você publicar aqui..... wink
Excelente crônica, como sempre. E estou com a Sylvia: também adoro seu bairrismo.

JB
JBPermalinkResponder

Riq,

Tenho que confessar: eu era igualzinho a voce (o segundo párágrafo em define precisamente)!!! Eu sabia de cor até as capitais dos estados dos EUA!

Na minha época ainda existia a Rodésia e a capital de Belize era Belize City. smile

Bons tempos...

Carla
CarlaPermalinkResponder

Já eu era assim com as bandeiras... wink

Gabi de Madri
Gabi de MadriPermalinkResponder

Hahahaha, adorei. O bairrismo gaucho é impagável, especialmente com humor, claro.

Alexandre Giesbrecht

Quando eu aprendi (também fuçando muito no Almanaque Abril), já era Sri Lanka, então "Ceilão" para mim sempre teve ares meio que mofados. Mas Alto Volta realmente faz falta; um dos nomes de países mais legais que já existiram. "Birmânia" nem era tão legal assim, mas Mianmá é pior.

Para achar o Brasil na lista de países, eu sempre clico no menu dropdown e digito a letra C. É mais rápido chegar ao Brasil de baixo para cima, embora dependendo do site o Canadá esteja listado em destaque, junto com os Estados Unidos, o que exige que eu, depois de perceber, tenha de digitar duas vezes de novo a letra C.

E a leitura de banheiro (a que não precisava entrar escondida, bem entendido) sempre foi a Placar.

gabebritto
gabebrittoPermalinkResponder

Na internet, ferrou-se: o domínio .rs é da Sérvia.

gabebritto
gabebrittoPermalinkResponder

Opa, foi dobrado.

Então vou aproveitar: Oscar de melhor nome de capital para Uagadugu.

PattyBraga
PattyBragaPermalinkResponder

Ao invés do Almanaque Abril, eu levava pra ler o Manual do Escoteiro Mirim e o Manual da Vovó Donalda....

Nessa onda de troca de nomes e reorganização política de países, o que me deixa chateada é que nunca mais vou poder conhecer, oficialmente, a terra da minha vó, Iugoslávia.

E sobre o nosso bairrismo, tem uma campanha de uma rádio aqui de Porto Alegre: Gaúcho, o melhor em tudo!
(Sim, claro que é uma campanha de brincadeira, justamente tirando onda desse nosso apego exacerbado ao pago!) grin

Beto Paschoalini

Dá pra traduzir esse pago?

PattyBraga
PattyBragaPermalinkResponder

Beto, em bom Gauchês, "pago" significa o nosso local de nascimento, lar, querência.... smile

Aliás, recomendo para os trips de fora do Rio Grande, que queiram conhecer um pouco mais sobre o nosso dialeto local: Dicionário de Porto Alegrês, do Professor Luis Augusto Fischer.
Tem à venda no site da editora!
http://www.lpm-editores.com.br/site/default.asp?Template=../livros/layout_produto.asp&CategoriaID=615491&ID=909490

Marco Cavalheiro - Buenos Aires Dreams

Eu adoro o Almanaque também. Tenho alguns que não são da Abril, o The World Almanac and Book of Facts - The Authority since 1868... Este tipo de publicação remete a um mundo com início-meio-e-fim. Dava uma sensação de segurança saber que o que eu precisava saber estava em um dos livros da Barsa. E de que outra forma saberia que Argentina deriva do latim Argentus, que significa prata. Rio da Prata e tudo faz sentido agora... Muito legal a nostalgia do Almanaque Abril, Manual do Escoteiro Mirim... Copiar mapa com papel vegetal e pintar com lápis de cor... Estes tempos perguntei pro meu sobrinho de 05 anos se ele sabia onde ficava Buenos Aires e ele me diz " já fui lá com o Google Earth..."

Eunice
EunicePermalinkResponder

Tb era viciada no Almanaque da Abril. Sabia a capital de todos os países. Difícil me conformar com as mudanças geo-politicas ao longo do tempo...eek)

Alexandre Magrineli dos Reis

Hoje um dos meus divertimentos é abrir o Google earth e navegar em algum lugar... aí uma praça de um canto me lembra de outra de outro canto e lá vamos nós....

Adri Lima
Adri LimaPermalinkResponder

Hahaha, olha que legal: daqui a pouco temos um inventário de onde veio, em cada um, esse vício em viagens. Eu gostava de ler e reler Historia do Mundo para Crianças e a Geografia de Dona Benta, do Monteiro Lobato. Tinha vontade de visitar aqueles lugares toooodos.

Isabel O., Portugal

Imagino que seja difícil às crianças aprender geografia por aí, com tão extenso país.
Mas quem é da minha idade, por cá, também não teve a vida facilitada. Nessa época Portugal administrava ainda imensos paises em África e éramos obrigados a decorar toda a sua geografia, produções agrícolas e linhas de caminho de ferro, incluindo estações e apeadeiros. Juro que não dava nada vontade de conhecer Angola e Moçambique, por exemplo. Era tudo a seco e fastidiante. Dessa época o que recordo com mais carinho era um álbum de cromos (não sei se dizem assim - tb há de jogadores de futebol) com todo o "Imperio Português", em que apareciam as etnias, os penteados e as roupas mais fantásticos.

Alexandre Giesbrecht

Isabel, embora nos pacotinhos e álbuns venha escrito que são "cromos", todos aqui no Brasil chamam de figurinhas. O álbum da Copa de 2010 é a última mania por aqui.

Isabel O., Portugal

Obrigada.
Eu acho que a mania das cadernetas e dos jogadores já teve melhores dias por aqui. A febre do jogo é que não. Aliás eu nem diria do jogo em si. Os aspectos paralelos, como as contratações, a indisciplina e o ossinho torcido da perninha do ídolo ocupam o maior espaço dos TRÊS jornais diários sobre o tema (infomação geográfica - somos só 10 milhões).
E não, não quis fugir ao tema, nem começar aqui discussão sobre f.. Foi só um desabafo.

Alexandre Giesbrecht

Fiquei surpreso com a mania aqui. Quando comecei a colecionar, achei que eu era o único adulto a fazê-lo. Qual não foi a surpresa ao descobrir que vários amigos meus, alguns até (bem) mais velhos, estavam colecionando!

PattyBraga
PattyBragaPermalinkResponder

Pois é... Apesar de adulta, também sou colecionadora de figurinhas. Não de futebol, mas de temas fofos como álbuns da Pucca, Princesas Disney, e vários outros...

Como a gente não está mais na escola pra trocar figurinhas com as colegas, existe um site muito bom pra quem gosta de colecionar e trocar figurinhas online: http://www.trocafigurinhas.com/

Emília
EmíliaPermalinkResponder

Nossa, Almanaque do Escoteiro Mirim...voltei no tempo: a minha empoeirada coleção eu acabei de doar para o meu sobrinho. Quanta diversão! Mas a minha fonte básica de informação era a Barsa que eu tinha em casa e uma certa coleção chamada 'Países do Mundo': eram a minha fonte de informação quando criança para conversar com o meu tio viajante grin
Aliás, outro dia eu e meu irmão estávamos nos divertindo vendo, no Atlas da Barsa de 30 anos atrás, o mapa da URSS e outros...

Adri Lima
Adri LimaPermalinkResponder

Emilia, eu tb tinha o Almanaque do Escoteiro Mirim, a Delta Universal (rival da Barsa) e a Delta Junior, que veio no pacote comprado por meus pais (eita brinde grande). E vinha também um Atlas Mundial enooorme, de capa dura, que eu adorava folhear. Affff, tá tudo explicado!

Marco Cavalheiro - Buenos Aires Dreams

Mundo da Criança, alguém lembra?... Tenho ainda a coleção inteira!

Adri Lima
Adri LimaPermalinkResponder

Eu tenho!

Guilherme
GuilhermePermalinkResponder

Nossa, muita nostalgia mesmo! Eu me identifiquei bastante com o seu relato, Riq! Vivia com o Almanaque Abril a tiracolo, olhando as informações dos países e decorando as capitais. Adorava Tuvalu e, principalmente, Zimbabwe, o nome mais legal de país! Sempre tive curiosidade em conhecê-lo, mas com o regime do Mugabe fica meio difícil...
Também adorava folhear o Barsa e, nos tempos pré-internet, me deliciava com as fotos dos países!
Almanaque da Copa do Mundo também eu me amarrava! Ficava só jogando bafo com os amigos da escola, trocando as figurinhas!
Bons tempos...

Clarice
ClaricePermalinkResponder

E eu, do Tesouro da Juventude, são dezoito volumes, é mole? :cool:

Dani S.
Dani S.PermalinkResponder

Nossa, eu lembro do Tesouro da Juventude! Vivia contando estórias edificantes para formar o caráter dos jovens. Mas eu não me emendei =P

Zezé
ZezéPermalinkResponder

Ai, que bom que alguém lembrou do Tesouro da Juventude! Trouxe da casa dos meus pais e tenho até hoje na minha estante ... Foi onde aprendi a "ler"!

Natalie
NataliePermalinkResponder

Riq, só vc mesmo para escrever uma crônica assim tão bacana =P

Alessandro A.
Alessandro A.PermalinkResponder

Eu era viciado no Atlas mesmo e decorava todas as capitais também! Sempre adorei Geografia!

Agora alguém se lembra daqueles países do jogo WAR? Vladivostok, Sumatra, Labrador, Mackenzie, Aral, Omsk, Dudinka. Quanta nostalgia!

Alexandre Giesbrecht - AVIVIXE

Bem lembrado pela Natalie: esta crônica recebe o carimbo de aprovação da AVIVIXE!

Dani S.
Dani S.PermalinkResponder

Riq: mrgreen mrgreen mrgreen
(e eu tenho um marido que, além de saber de cor todas as capitais da África, ainda sabe as bandeiras todas, e fica fazendo quiz...)

Luciana Bordallo Misura

Riq, falando em ilha pouco conhecida, você já ouviu falar nas Ilhas Socotra? Fazem parte do Yemen e tem paisagens super bizarras e praias lindas. Da uma olhada http://en.wikipedia.org/wiki/Socotra mas as fotos da Wikipedia nao fazem jus, uma busca no Google Images tem fotos melhores.

Sônia
SôniaPermalinkResponder

Riq, eu também adorava o Almanaque Abril, ficava ansiosa quando ia terminando o ano, pois o novo estaria nas bancas logo. Fazia pressão para minha mãe comprá-lo. E folheava aquelas páginas frágeis sem me cansar. Talvez esse também tenha sido um incentivo para me graduar em Geografia.
Mas hoje nada mais moderno do que entrar no site da CIA (a própria) e buscar o link The World Factbook, com todas as informações sobre todos os países do mundo!!!! E atualizado a cada 24 dias!!!
E concordo com todos, ótimo texto!
Saudações
Sônia

Eunice
EunicePermalinkResponder

Alessadro A: o WAR era outro vício, nas noites do veraneios, jogava com os meus irmãos. Um dos meus irmão ainda joga WAR, hoje pela net.eek). Ter a Asia como objetivo era sempre um desafio.

Eunice
EunicePermalinkResponder

"dos"

Leandro
LeandroPermalinkResponder

Seria mais interessante se a capital de Burkina Faso fosse Bobo Dioulasso. smile (eu falo as duas com dois esses)

Já encontrei por aí lindas fotos de praias da Ilha de Socotra, as primeiras que vi logo pensei no VNV.

christiana
christianaPermalinkResponder

Bairrismo? Esperem até o Rio Grande saber que foi reduzido a bairro...

Ótima crônica.
Beijos do Rio. O pequeno, de Janeiro wink

Silvia Oliveira - Matraqueando

E eu, que chamo até hoje a República Tcheca de Tchecoslováquia! :roll:

Tania Janin
Tania JaninPermalinkResponder

Riq, eu sp me sinto viajando quando entro no VnV,através dos seus relatos, dicas, fotos...mas hj, foi demais. A viajem foi interna,foi na nossa pp vida, nas nossas lembranças afetivas mais remotas e ilustradas. Ah, bom demais. Almanaque Abril, Barsa, Delta. Lembrei de um livro capa dura, faz tanto tempo que nem sei o nome, mas falava da vida dos faraós, Ramisses I,III.....com direito, a fotos, aos mapas e tudo, interessantíssimo. Isso sem falar dos Atlas, tb de capa dura, que eu herdava do irmão mais velho, e que estava sp folheando, procurando países, capitais, bandeiras. Naquela época os livros dos irmãos mais velhos eram aproveitados pelos mais novos e era um luxo ter livros de capa dura....Não sei quem, mas lá em cima alguém falou que o gostar de viajar deve ter começado assim, concordo.
Boa viagem a todos.

Emiliano Homrich

O Almanaque Abril, o atlas do Reader's Digest do meu avô e o War foram os pilares da minha infância, hehe...! No Almanaque, além das capitais, adorava comparar as rendas per capita, até que uma prima mais velha, politizada e azeda me disse que aquilo ali não representava nada, já que a divisão de renda nem sempre era justa. Ficava morrendo de vontade que Porto Alegre chegasse logo ao milhão de habitantes e só passei a descrer daquela publicação quando vi que Curitiba chegou lá antes - era óbvio que aquilo estava errado!!!

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