Tracinho (minha crônica no Divirta-se do Estadão)

Ricardo Freire
por Ricardo Freire

Hifens! Hifens! Hifens!

Quer viver protegido no Brasil? Há duas chances: ou você nasce tartaruga marinha, ou você nasce mangue. Nascendo tartaruga ou nascendo mangue, governos de todos os partidos e facções farão o possível para que você tenha uma vida longeva e sem sobressaltos. Nascendo gente, você já sabe como funciona.

Ainda bem que eu não nasci hífen. Se eu tivesse nascido hífen, já estaria praticamente extinto, a canetadas, desde a última reforma ortográfica. Não me olhe assim. Tenho pelo hífen o mesmo apreço que os biólogos tem pelo mangue. Em francês é chamado “traço de união”. Porque é exatamente isso que o hífen faz: une palavras sem deturpar as suas feições originais.

Acabou-se. Agora, sempre que for possível, a regra manda dobrar o “r” ou o “s” e mandar o hífen pras cucuias. Não passa um dia sem que apareça mais uma palavra horrível. Outro dia uma amiga que divulga uma orquestra sinfônica estava inconsolável por precisar escrever “cossolista”. No meu dicionário, “cossolista” é um maestro adjunto que sofre de alguma doença incurável.

Escrevi meu último guia de praias no final de 2008; quando fui ler as provas finais, a ortografia já estava adaptada à reforma que ainda viria. Todas as minhas praias parcialmente desertas viraram “semisselvagens”. No meu modo de ver as coisas, uma praia “semisselvagem” está cheia de entulho – um monte de “s” sobrando.

Um amigo sergipano estava pensando em criar roteiros ecológicos que ia batizar de “ecorrotas” – escritas desse jeito, porém, já nasceriam estragadas. Melhor não.

Só não mataram totalmente o hífen porque lhe devolveram uma ou outra palavra onde pode tratar de ter uma morte mais lenta e dolorida. Micro-ondas, por exemplo.

Claro que ninguém mais sabe que palavras são essas. A reforma ortográfica criou uma nova classe dominante: a classe que domina o hífen. São dois ou três em todo o mundo lusófono.

Já perdi a esperança de que a reforma seja revogada, mas não deixo de praticar a desobediência civil em todos os meus textos que não precisam passar por revisores. E em 2013, quando escrever do jeito antigo der cana, junto meu dossiê e vou pedir asilo ortográfico à França.

41 comentários

Marilia Pierre

eu nunca fui assídua dos acentos, mas eles sempre estariam lá para alguma idéia ou para algum vôo mais ousado, mas e agora? quem me sustenta, quem me apóia nesta vida?

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p.s.: riq, o sorteio é hoje e eu não recebi meu número :/

Ricardo Freire

Procure no próprio post, está lá (atribuí ontem de madrugada)!

E em tempo, adorei a frase mrgreen

Marilia Pierre

riq,

na nova ortografia a bóia vira boia (leia-se bôia)?????

Ricardo Freire

Eu sei! Mas já contratei lobistas em Brasília para que a Bóia seja mantida como exceção, assim como os baianos conseguiram com Bahia mrgreen

Carmen
CarmenPermalinkResponder

Intra-racial passa a intrarracial... quantas rrrrrrrrr.... en Espanha se usa a doble "erre", mais não a dobre "ese"... como em assim.
Adorei a palavra "hífen" é bem estranha

Marcie
MarciePermalinkResponder

Tô nessa: asilo ortográfico, já! Resistirei até o fim, ainda mais que vivo sendo corrigida, humpf!!

Carmen
CarmenPermalinkResponder

Doble é duplo, descupe...

Maryanne hotelcaliforniablog.wordpress.com

Grande texto. bj e boa convenção hoje.

Mari Campos
Mari CamposPermalinkResponder

Eu também ADORO meus textos que não passam por revisores só pra cometer um ou outro "crime" ortográfico - sim, vamos todos pedir asilo pós 2013, claro. Continuo fã de hífen e vira e mexe me saem vôos, idéias e afins. Mas, bem francamente, acho que o novo micro-ondas me incomoda tanto quanto semisselvagens, sabia?

Ricardo Freire

Ha! Agora eu tenho vontade de botar hífen em tudo. Até em mini-saia smile

Mariana "de Toledo" (@merel)

Bi-quini! grin

zuzu
zuzuPermalinkResponder

Riq
Estou com voce. nao me adaptei a essa reforma.
Adorei o texto, leve e divertido!

Flavia
FlaviaPermalinkResponder

Eu não consigo parar de rir, mas tenho que dizer que vcs estão ficando velhos, que nem pais chatos de amigos que escreviam êste - isso, com acento.

A única crítica que faço a essa reforma ortográfica é terem tirado o acento diferencial, porque fica confusa a compreensão de texto.

Mas confesso que ainda não domino o uso do hifen...

Ricardo Freire

Eu sou totalmente a favor da volta do êste!

mrgreen

Dri
DriPermalinkResponder

Minha mãe não se conforma e escreve bôlo até hoje. Se é que um dia já foi escrito dessa forma!!!

Carla
CarlaPermalinkResponder

Hahaha... Eu já sou dessas velhas que escreve tudo do jeito que aprendeu - e se recusa a mudar! Não é por teimosia, é por não ver propósito na mudança. Essa reforma só serviu para tornar todas as bibliotecas obsoletas da noite para o dia - e, claro, para aumentar o lucro das editoras com as reedições de tudo... O que me consola é que nenhum profissional de Letras do meu convívio (e eu trabalho em um Instituto de Letras!) está de acordo com isso... wink

carol garcia
carol garciaPermalinkResponder

óoootimo post riq!

sou contra a queda do hífen!

tracinhos de união livres e para todos!

bjocas

Amélia
AméliaPermalinkResponder

Estou indo para a França, correndo!!!!
E a culpa é do hífen!

Elisa
ElisaPermalinkResponder

Adorei-o-texto-de-hoje!

Mariana "de Toledo" (@merel)

Essa reforma só serviu para pessoas de bem, entusiastas do idioma, levarem uma rasteira. Muito ruim, para quem aprecia o Português, acordar um dia e não saber escrever direito a própria língua!

A sua amiga que divulga uma orquestra sinfônica não aguenta mais corrigir "estreia" e "plateia". É todo dia!

beijo grande!

PS: DEUS ME LIVRE DE UMA ECORROTA! Chamo até a polícia! grin

Carla
CarlaPermalinkResponder

É isso aí, Mariana! Quando o acordo entrou em vigor eu disse que antes algumas pessoas sabiam escrever em português e a partir daí ninguém mais saberia... Tenho a impressão que foi isso mesmo o que aconteceu! shock

Virginia Lucia

Carla e Mariana, eu amo o português e justamente com isso estou furiosa com a reforma. Concordo com vocês, não há propósito, não vai adiantar para quem já não sabia escrever...
Riq, texto maravilhoso, morri de rir.

Oscar
OscarPermalinkResponder

Se esta difícil para quem mora no Brasil.. Imagine para quem mora fora (Expa-triado)!! Btw..Ó-temo Texto!!

Claudia Beatriz - Aprendiz de Viajante

Meu português anda digno de exílio mesmo. Sempre gostei de escrever certinho e o que me dizia se estava certo ou não, era se a palavra parecia "bonitinha" ou não. O errado sempre me incomodou, mas agora, o certo é o feio, então já não sei e nem me importo mais!

Mirella
MirellaPermalinkResponder

Adorei o texto...
Como boa assassina da lingua portuguesa (e inglesa), eu nem dou opinião, pois no final vou continuar cometendo errinhos do jeito novo ou do velho smile
Mas também acho que essa história do hifen foi demais, essas palavras não combinam do jeito que está sendo escrita!
E bora lá "aprender" a escrever ehehe...

diogo
diogoPermalinkResponder

mestre!!! mestre!!! mestre!!!

bjos

Marcio Nel Cimatti

Que coisa né? Será difícil acostumar com essas palavras novas sem o tracinho...

Ana Carolina
Ana CarolinaPermalinkResponder

Eu sofro cada vez que tenho que relatar que um "recurso foi contra-arrazoado".

Aline
AlinePermalinkResponder

No orkut estou na comunidade "Viúvas do Trema".
Sempre amei escrever 'lingüiça', 'freqüente' e ainda teimo.
Não aceito essa correção ortográfica em nada.
Acho que vou abrir a comunidade 'Viúvas do hífen'.

Janira Borja
Janira BorjaPermalinkResponder

Gente, também sou viúva do trema! Que-que-é-isso? Quando vejo a palavra "linguiça", sem o trema, só consigo ler "lingiça" (sem o som do "U"). Me dá vontade de rir! E agora mais o hífen... Se alguém me convidar para uma ecorrota, eu fujo!

Arthur | Agora Vai

Êú goxtêy múyto dá krôníka ê kônkórdo kóm ô pêççoál.

Gramática particular - favor não confundir com miguxês.

Isabel O., Portugal

A reforma a que se referem é aquela-que-devia-estar-por-aqui-também-e-que-só-nalguma-imprensa-se-lê-porque-NINGUÉM-lhe ligou nenhuma-e-passou-a-escrever-coisas-bizarras-como-exceção?
É que nem o Ministério da Educação... eu lecciono L Portuguesa e para este ano lectivo (Setembro-Junho 2011) nenhuma indicação nos foi dada.
A malta por aí está mais obediente ou quê?

Ricardo Freire

Por aqui a imprensa inteira aderiu no primeiro momento, Isabel. Quase todos os grupos têm interesse na reedição de livros didáticos, que ficaram desatualizados e precisam ser todos substituídos. O interesse econômico e corporativo prevaleceu sem absolutamente nenhum questionamento. Mas as Organizações da Bóia, com acento, continuarão enquanto for possível a defender as diferenças entre brazucas e tugas smile

Carla
CarlaPermalinkResponder

Felizmente no meio acadêmico a resistência é um pouco maior, mas acho que somos todos vistos como uns rebeldes sem causa... Até hoje não li nenhuma dissertação de mestrado ou tese de doutorado que esteja obedecendo às novas regras! Acho que só mesmo quando "der cadeia" que o pessoal vai aderir... wink

Ricardo Freire

Que ótimo! Não sabia que havia resistência na academia! Quero links!!!! :mrgreen?

Carlos Nascimento

Riq, permita-me transcrever um trecho do livro A Língua Nacional (1921), do nosso conterrâneo João Ribeiro.
"Por vezes temos meditado nas atribulações que sofre o nosso homem de letras no uso da sua própria língua.
É por simples vaidade, e talvez por esnobismo, que um que outro mais ousado afeta desdém e indiferença pelas questões de gramática.
Não há inteira sinceridade nesse menosprezo. A pecha de incorreção é um percalço terrível.
Daí, o êxito relativo dessas seções jornalísticas que nos instruem nas fantasias do bem falar ou do bem escrever, e nos dizem como se fala e escreve em... Coimbra ou em Lisboa.
Os conselhos não são lidos com interesse; mas sempre se passa a vista por essas impertinências.
Enfim, convém inteirar-se do que contém os cartapácios do bom-tom, com agrado ou displicência.
Parece todavia incrível que a nossa Independência ainda conserve essa algema nos pulsos, e que a personalidade de americanos pague tributo à submissão das palavras"

Claudio Motta
Claudio MottaPermalinkResponder

Muito bom o texto! Até hoje ainda não sei a quem interessa tal mudança. Parece que não agrada nem aqui e nem lá (outros países de língua portuguesa)...

Silvia Granata

E eu que nasci em Buenos Aires e moro aqui há uns 14 anos: quando achei que estava aprendendo a escrever em português... mudaram todas as regras!!!!! Socorro!!!!!

Robs
RobsPermalinkResponder

Não se preocupe, Silvia. Eu nasci aqui e também tenho a mesma sensação.

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