À mesa no Nordeste: meia-porção de problemas

Ricardo Freire
por Ricardo Freire

Nordeste meia porção

Publiquei esta crônica na minha coluna do Estadão esta semana. Mas não consigo resistir a colocar aqui também. Por favor NÃO CONTEM PRA NINGUÉM que eu fiz essa travessura, está bem? Obrigado wink

Uma das vantagens de viajar pelo Nordeste é poder dividir pratos.

Na maioria dos restaurantes, os pratos servem duas, até três pessoas. Às vezes a informação está explícita no cardápio. Outras vezes, porém, dá para intuir pelo preço: se você está numa capital de médio porte, tipo João Pessoa ou Natal, e o prato de um restaurante sem luxos tem preço de São Paulo (R$ 70 ou R$ 80), é porque serve um casal. Se tiver preço que até em São Paulo seria caro demais (R$ 120, por exemplo), é porque dá para três ou quatro.

O problema é quando você vai sozinho a um restaurante desses –- ou vai acompanhado de alguém com gostos (ou restrições alimentares) diferentes. A pergunta óbvia – “Vocês fazem meia porção?” – muitas vezes é respondida com um “Não”. Dá para entender que paellas, peixes inteiros ou mesmo moquecas não se prestem a versões individuais. Mas a impossibilidade de preparar filés, postas ou pratos de camarão para uma pessoa realmente me escapa.

A única opção fora o desperdício é procurar, no rabicho do cardápio, a seção de pratos individuais. Quase sempre a oferta é pouca e sem o apelo dos pratos para dois. Quem vai ao Nordeste para comer massa (passada do ponto) ao sugo (malfeito)?

Nas barracas de praia, a solução é ficar nos petiscos. Dia desses, na orla de Tamandaré, para não pagar uma refeição (para 3) de R$ 90, pedi um petisquinho de R$ 50. Vieram duas postas gigantes de peixe frito com uma montanha de batata frita. Me senti mal de deixar tanta comida na travessa.

O problema atinge até restaurantes pretensamente chiques. No Coco Bambu, rede cearense com casas em vários estados (incluindo São Paulo) e no Nau, restaurante do momento tanto João Pessoa quanto em Natal, nem um bilhetinho assinado pelo Papa Francisco convenceria o maître a servir meia porção. O jeito é ficar só na entrada – ou ir ao Camarões, o concorrente natalense do Nau, que prepara porções individuais com um pequeno sobrepreço.

A questão está tão enraizada na cultura nordestina, que veja o que me aconteceu em Maragogi. Um restaurante da orla anunciava, num quadro negro, pratos sofisticados (spaghetti ao pesto de coentro, polvo à galega com batatas ao murro) a preços abaixo de R$ 50. Obviamente, eram pratos para um. “Oba, hoje não vai ter desperdício”, pensei comigo. Sentei. O garçom perguntou se eu estava sozinho. Respondi que sim. Então trouxe o cardápio. E já foi se desculpando, como se a informação fosse me ofender: “Olhe, preciso avisar uma coisa: nossos pratos são individuais, tudo bem?”

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21 comentários

Perla
PerlaPermalinkResponder

Para mim e meu marido que somos muitos bons de garfo, o Nordeste é um verdadeiro paraíso!

Samuel Batista

Rapaz... li isso aê e agora sei que tenho, devo, PRECISO ir pro Nordeste o quanto antes...

Luiz Carlos Tiago

É bem dificil mesmo. Minha mulher não gosta de peixe e eu amo. Mas mesmo que ela gostasse os pratos são sempre enormes. É um grande desperdicio de comida.

Karla Greger
Karla GregerPermalinkResponder

Esse pode ser um problema em alguns lugares mais isolados, realmente. Mas, recentemente, tive uma agradável surpresa em Maceió. Estávamos somente eu e meu marido, ele alérgico a camarão. Era fim de semana e o restaurante só trabalhava com porções grandes, expliquei ao garçon, ele gentilmente nos ofereceu o cardápio de pratos individuais que é servido durante a semana. Saímos muito satisfeitos. A gentileza do nordestino é fantástica.

Camila
CamilaPermalinkResponder

Sou de Fortaleza e concordo. Não curto ter que escolher um prato para dois, sendo obrigada a pedir essas porcões grandes. Inclusive até evito ir a restaurantes que só trabalham assim.
Antigamente víamos mais disso, mas agora estou notando muitos dos restaurantes se adaptando e oferecendo mais porções individuais. Coco Bambu aqui em Fortaleza tb tem pratos individuais. O Tio Armênio, que se não me engano é de Recife, mas tem filial aqui, tem no cardápio a opção do que eles chamam de meia porção (para 1 pessoa) de todos os pratos.

Elyane amorim
Elyane amorimPermalinkResponder

Apenas para informacao o Coco Bambu ja esta com pratos meia porcao .

Michele Capiotti

Em João Pessoa o Tasca da Esquina tem um menu, se não me engano chama-se Nas Mãos do Chef, com uma proposta diferente. Vale conferir!
Engraçado que aqui na Europa sinto que está ocorrendo o contrário, a moda são pratos pequenos, você pede de acordo com o tamanho da sua fome e compartilhar e super fácil.

fabiane
fabianePermalinkResponder

Alguém comentou aí : a gentileza do nordestino é fantástica!! Perfeito comentário.Amo Muito esse povo. Amo Muito o Nordeste. Temos muito que aprender com eles.Principalmente o povo daqui do sul do país

Victor
VictorPermalinkResponder

Olha... não sei se este é um problema SÓ do nordeste. Este ano estive em Arraial do Cabo - RJ (que lugar lindo!!!), mas as porções lá também são além da conta. Por exemplo: meia porção comíamos eu e a namorada e ainda sobrava. Não seria melhor verificar a situação em várias praças, para não ficar parecendo preconceito com os nordestinos? Abç.

Jurema
JuremaPermalinkResponder

Bem nada a ver seu comentário...

Sandra
SandraPermalinkResponder

Estou passeando em Natal e vi alguém muito parecido com o esposo do Riq e o próprio. São eles mesmo ou eu estou enxergando o que quero ver?

A Bóia
A BóiaPermalinkResponder

Olá, Sandra! O Comandante esteve em Natal no começo de outubro, e estava sozinho smile

Adri Lima
Adri LimaPermalinkResponder

Na praia, se eu não tiver com quem dividir um prato, uma casquinha de siri (que geralmente vem o siri catado + farofinha + saladinha vinagrete) vira meu almoço. grin

Claudia Chow
Claudia ChowPermalinkResponder

O mundo é dos casais... :/

Izabel Wanderley

Em parte concordo com você, apenas gostaria de registrar que o nordeste não só oferece comidas típicas e ao contrário do que se pensa ele tem restaurantes de deixar São Paulo ajoelhado. Comemos muito bem e também fazemos excelentes massas. Em sua próxima viagem inclua o Recife em seu roteiro gastronômico que tenho certeza que mudará o seu conceito em relação ao nordeste.
Ex: Mingus, Leite, Çava, Viella, Buca, Tasquinha do tio, Central, du vin, Pecora Nera, Vila, Ponte Nova e muitos outros...

gustavo carlos calcena aguero

Só para atualizar, recentemente estive no Nau em João Pessoa aonde agora existe um cardápio individual com opções de pratos do cardápio original a preços acessíveis e sabor irretocável. Abraços

Luis
LuisPermalinkResponder

Ricardo e Bóia,

Uma boa notícia: o Nau (João Pessoa) já tem um menu individual.
Finalmente, podemos ir ao restaurante sozinhos.

Espero que, um dia, isso seja uma prática usual nos demais restaurantes.

Abraços

Anamaria
AnamariaPermalinkResponder

Concordo com Izabel, os restaurantes que servem estas porções muiiiiiito grandes são aqueles regionais e voltados mais para receber turistas. Os melhores restaurantes frequentados pelos locais ou para quem procura uma gastronomia mais elaborada, pelo menos aqui em Maceió, terão pratos que não sejam individuais (vide Wanchako, Sur, Maria Antonieta etc.)

Cintia
CintiaPermalinkResponder

Em Natal, fiquei em apart hotel e foi ótimo. Eu não dava conta de nenhuma refeição sozinha. Cheguei a comer em três vezes uma porção. Levava embora a comida, colocava na geladeira e esquentava depois. Não gosto de desperdiçar comida.

Marília
MaríliaPermalinkResponder

Eu gosto muito deste blog, mas não consegui entender o motivo deste post! Nunca tive este tipo de “problema” exclusivamente no “Nordeste” (que é tão grande e diverso, mas infelizmente as pessoas insistem em tratar como se fosse tudo uma coisa só), o “problema” da porção para duas pessoas geralmente acontece em qualquer praia do país. Nada que nunca tivesse sido resolvido (de fato, nada como contar com a gentileza do nordestino).

A Bóia
A BóiaPermalinkResponder

Olá, Marília! O problema é que no Nordeste este problema atinge também os restaurantes sofisticados. E não há a opção de meia-porção nas barracas de praia, o que é extorsivo.

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