Carta aberta: Relacionamento entre blogs e empresas – algumas diretrizes importantes para estabelecer parcerias consistentes

boia6Com a crescente ampliação do alcance das mídias sociais e da validação da experiência pessoal, cada vez mais indivíduos comuns buscam nos blogs, nos relatos pessoais, informações diversas que fazem parte do seu cotidiano: de tecnologia à arte, de beleza à saúde, de alimentação ao turismo. O certo é que há uma grande variedade de assuntos e experiências sendo discutidos e uma grande variedade também de perfis no que diz respeito a blogs.

O que, originalmente, teve início como um espaço que se assemelhava a um diário pessoal tomou outro rumo: o da profissionalização, sem contanto perder a pessoalidade do discurso. Eis que surge, então, um novo perfil no mercado, o de ProBlogger.

O ProBlogger, ou blogueiro profissional, trabalha, tira seu sustento ou parte do seu sustento do seu espaço. Muitas pessoas abriram mão de seus empregos tradicionais, muitos de estabilidade, para investir em um projeto independente, cuja credibilidade é construída ao longo do tempo e, principalmente, pela fidelidade de seu leitor.

Diante da ampliação do alcance das mídias sociais e de sua credibilidade, as empresas também passaram a enxergar nos blogs e nos demais representantes desse perfil de mídia um espaço promissor. As empresas veem a possibilidade de utilizar a credibilidade destes meios, construída gradativamente, para divulgar seus produtos. Assim, o relacionamento entre empresas e blogs começou a ser delineado. Diante de algo novo, de uma configuração nova, o estranhamento sempre é presente. Como lidar com este novo tipo de mídia (que também não é tão novo assim)?

Neste processo de profissionalização de blogs e de construção de relacionamento entre blogueiros e empresas, os parâmetros ainda estão sendo construídos. Há, no entanto, pontos que são sensíveis a esta nova configuração e que algumas empresas devem levar em conta desde o primeiro contato. Dessa forma, poderão conquistar parceiros constantes, que contam com credibilidade e que têm uma trajetória que precisa ser respeitada. Com isso, o respeito será também para com os leitores.

O mercado de blogs é profundamente heterogêneo: há blogs dedicados a assuntos distintos e de trajetórias distintas. Há blogs novos, recém-criados e cheios de potencial – que devem ser levados em conta – e há blogs antigos, que já têm uma história e trajetória tecidas ao longo do tempo. Todos podem conquistar seu espaço e estabelecer parcerias sérias e consistentes.

Ao procurar os blogs, as empresas devem considerar alguns fatores:

– Estudar cada blog selecionado para possíveis parcerias para compor propostas distintas.

Nenhum blog é igual. Talvez o primeiro grande erro de uma empresa, ao entrar em contato com um blog, seja o de não levar em conta essas diferenças. Cada nicho é um nicho, cada blog é um blog. Quando uma empresa faz uma proposta comercial, por exemplo, única para todos os espaços, ela está esquecendo de levar em conta a heterogeneidade destes blogs.

Para uma empresa começar com pé direito o relacionamento com um espaço, é preciso estudá-lo antes: analisar a consistência do seu conteúdo, ver há quanto tempo está no mercado, seus parceiros anteriores, ações, postura. Não basta pedir o número de acessos, de visitantes únicos, de seguidores no Twitter ou na Fanpage. Até porque alguns, infelizmente, usam de meios tortos para fabricar estes mesmos números.

Obviamente, estudar todos estes pontos em consonância exige um pouco mais de tempo e de dedicação. Talvez seja isso o que vai ajudar uma empresa a ser bem vista pelos seus possíveis parceiros e impedir que ela fique “queimada” entre eles. No final das contas, os blogueiros acabam trocando informações, entre outras razões, para avaliar se esta empresa é confiável, se a parceria é consistente. Um diálogo existe entre os blogueiros, por mais que não exista uma associação. Afinal somos independentes.

Então, repetindo, vale a pena gastar um pouco mais de tempo para delinear uma proposta para cada blog que esteja no radar, levando em conta todos os parâmetros citados acima, para que seja feita uma proposta justa e coerente.

– Consulte as opções que o blogueiro tem a oferecer nas propostas. Trate-o como um profissional.

Outro ponto importante: se uma empresa nos enxerga como um meio relevante e profissional de produção e compartilhamento de conteúdo, nos trate dessa forma. Muitas empresas acham absurda a ideia de pagar um blogueiro pelo seu trabalho, mas pagam milhares de reais em anúncios em meios tradicionais, que já não são mais tão eficientes quanto foram no passado. Investir em blogs é certeza de atingir um público segmentado e de qualidade. Exatamente por isso é que as empresas querem relacionamentos com os blogs – para alcançar o público consumidor de uma maneira mais pessoal, mais eficiente, direta e com o respaldo do blogueiro. Por que então, muitas vezes, as negociações comerciais envolvendo dinheiro ficam limitadas à mídia tradicional e as propostas para os blogs não incluem remuneração real?

Lembrem-se, um blogueiro profissional tira toda a sua renda ou parte dela de seu espaço; trabalha, muitas vezes, horas para por um post no ar; faz e edita fotos etc. Investe tempo, dinheiro, esforço e emoção no seu trabalho.

Empresas: não percam de vista que as negociações estão sempre abertas. Façam suas propostas, ouçam a proposta do profissional que foi contactado e, sobretudo, não envolva parâmetros, valores e nomes de outros blogs na sua negociação. Não traga para a negociação frases do tipo “blog tal cobra tanto, então por que você cobra este valor?”. Isso fere a ética e o profissionalismo de uma empresa.

Como foi citado no item anterior, cada blog é um blog, cada um possui uma trajetória, fidelidade de leitores e formas de trabalhar: com publieditorias (sempre sinalizados como publieditoriais), banners, ações de marketing, fam trips, permutas… Há várias formas de montar parcerias. Ouça, negocie, saiba o que ele tem a oferecer.

– Sobre propostas nebulosas de ceder conteúdo a um blog e embutir links de clientes nos textos, sem comunicar aos blogueiros.

Há empresas que, infelizmente, adotam esta prática. Neste caso, esta se compromete a ser uma espécie de “colaboradora” do seu blog, enviando textos com links embutidos em palavras-chave, promovendo um cliente, sem custo algum, lesando o blogueiro. Esta “colaboração” na verdade é uma forma de promover o cliente da empresa sem repassar nada ao blogueiro.

– Sobre premiações

Algumas empresas encontraram em concursos um meio de se promover. Criam uma premiação, alegando que vão eleger o melhor blog na categoria x, mas exigem que os participantes coloquem selos em seus blogs (banners com links diretos para o site que promove a premiação) e que façam campanhas nas redes. No fim das contas, a ideia não é homenagear um blog, mas divulgar vastamente o nome da empresa, atrair tráfego para seu site e reforçar seus links junto às ferramentas de busca.

Há casos ainda em que a empresa diz que elegeu os melhores blogs para participar e, à medida que os “indicados” declinam do convite, convocam outros, os transformando em meros “tapa-buracos”. É um desrespeito ao trabalho dos blogueiros. Clareza e ética são pontos cruciais!

– Sobre propostas para escrever posts em troca de remunaração irrisória ou indigna.

Produzir conteúdo – textos, fotos, vídeos – é o trabalho do blogueiro. É no que ele investe seu tempo e esforço. O bom conteúdo atrai os visitantes para o blog e é a base para que o blogueiro construa sua credibilidade e conquiste a fidelidade dos leitores. Há empresas que desconsideram isso e que fazem propostas indignas. Existem casos de ofertas de “parceria” em que o blogueiro é convidado a escrever em troca de um cupom da empresa ou em troca de um valor tão pequeno que não compra nem um hambúrguer. Não há “parceria” que possa ser construída nessas bases.

Tendo em vista a crescente consolidação de blogs profissionais no mercado e da relevância do alcance das mídias sociais no contexto atual, é preciso que muitas empresas que nos contactam, visando estabelecer parcerias, trabalhem seu olhar com relação a este novo mercado, já que faz uso do mesmo para ampliar o seu alcance. Que as relações não sejam unilaterais e extorsivas e que todos tenham a possibilidade de crescer juntos e não apenas de servir de “escada” para muitos. Se uma empresa busca consolidar sua credibilidade e profissionalismo diante do mercado, que este processo comece desde a construção de relacionamento com os seus possíveis parceiros.

(Texto escrito por Janaína Calaça, editora do blog de viagem Jeguiando, com colaboração e revisão de Elisa Araujo, sócia e diretora comercial do Viaje na Viagem)

– Blogueiros e membros da Rede Brasileira de Blogs de Viagens que participaram da discussão sobre o relacionamento entre empresas e blogs e apoiam a causa:

Janaína Calaça e Erik Araújo – Jeguiando

Ricardo Freire e Elisa Araujo – Viaje na Viagem

Pedro Serra – Blog sem Destino

Maurício Oliveira – Trilhas e Aventuras

Sut-Mie Guibert – Viajando com Pimpolhos

Érika Marques – Blog Outros Ares

Carol May Rodrigues – Dicas e Roteiros de Viagens

Natália Gastão – Ziga da Zuca

Renata Inforzato – Direto de Paris

Leonardo Marques – Melhores Destinos

Jackeline Mota – Viaje Sim!

Thiago Cesar Busarello – Vida de Turista

Flávia Peixoto – Viajar é tudo de bom

Átila Ximenes – Blog Vou Contigo

Edson Maiero – Photo Travel 360

Camila Navarro – Viaggiando

Claudia Beatriz Saleh – Aprendiz de Viajante

Raquel Gonzaga / Rodrigo Nominato – Aventure-se.com

Mô Gribel – Por Onde Andei

Patrícia Camargo – Turomaquia

José Henrique Amormino Fonseca – Aventuras e Expedições

Marcio Nel Cimatti – Ajanelalaranja

Clarissa Donda – Dondeando por aí

Jodrian Freitas – Aventura Mango

Lucia Malla – Uma malla pelo mundo

Gleiber Rodrigues – Andarilhos do Mundo

Diego Fontenele Lemos – Blog de Viagens

Ana Catarina Portugal – Turista Profissional

Tatiane Dias e Christian Borchardt Jr – Sair do Brasil

Luiz Jr. Fernandes – Boa Viagem

Tiago Reis – Rotas Capixabas

Eliane Ceccon – 1001 Roteirinhos

João Aguiar – Viajando no Mundo

Daniel Duclos – Ducs Amsterdam

21 comentários

Me coloco no lugar de vocês blogueiros profissionais ou não, como autora e palestrante. A ética do mundo moderno não dá valor ao que fazemos. Excelente o texto e a discussão. Deve ser enviado a todo fornecedor picareta que mandar essas bombas para vocês!

Excelente texto!
Não participei ativamente da discussão, mas pode incluir o meu nome na lista de blogs que apóiam a causa.

Faltou na carta estabelecer como deve ser a parceria, para que ela tenha transparência, para que ocorra sem ludibriar o leitor, para que ela não interfira na isenção do blogueiro.

    Esse é um aspecto complexo.

    No começo, confesso que eu fui um dos que torci o nariz para o fato do Riq começar a viajar de forma patrocinada.

    Aos poucos, fui entendendo e aceitando a ideia. Claro que em um “mundo ideal, utópico e hipotético” os blogueiros pagariam, sempre, 100% de suas viagens e não precisariam nem mesmo de anúncios AdWords by Google nos seus sites!

    Todavia, não é isso o que acontece. Se o próprio Riq escreveu há uns meses aqui no VnV que só recentemente suas viagens passaram a se pagar, imagine os outros tantos blogueiros…

    Vender assinatura em blog é algo impensável, ao menos até o momento.

    Aqui no VnV, acho que o meio-term adotado é honesto: posts patrocinados são claramente classificados como tal, e quando o blogueiro ou a Boia viajam a convite, isso é deixado claro no texto.

    Eu não espero ler um post bem crítico de uma viagem a convite que o Riq fez, mas acho que ele manteve a qualidade geral nos posts não-patrocinados e uma isenção relativa, por exemplo, não proibindo ou censurando menções a concorrentes dos anunciantes como certos blogs fazem.

    Concordo com você. Acho que este blog encontrou uma boa fórmula. O leitor sempre fica sabendo quando a viagem ou post é patrocinado. Mas achei que faltou estabelecer este tipo de coisa na carta, mesmo porque são vários os blogs que a assinam, não somente este.

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