Cartão de crédito em viagem

Por que eu nunca deixei de usar cartão de crédito em viagem

Cartão de crédito em viagem

Na terça-feira dia 12 o dólar comercial fechou abaixo de R$ 3,30, voltando a seu valor de um ano atrás. Desde fevereiro de 2016, a moeda americana vem se desvalorizando, devagar e sempre, frente ao real.

Isso significa que, nos últimos cinco meses, quem usou cartão de crédito em suas viagens internacionais acabou experimentando uma variação cambial positiva. O que acontece nesses casos? Sempre que o dólar do dia do pagamento estiver mais barato do que o dólar do dia do fechamento da fatura, o freguês tem direito a ressarcimento da diferença na fatura seguinte. Eu, por exemplo, viajei em maio, paguei a fatura do cartão em junho e agora em julho recebi um crédito de quase R$ 500 por causa da queda do dólar.

É uma situação excepcional, claro. O “normal” — ou pelo menos o que a gente espera e guarda na memória — é o real desvalorizar entre o fechamento da fatura e o dia do pagamento, e ocasionar uma cobrançazinha adicional na fatura seguinte. Entre setembro de 2014 e setembro de 2015, por exemplo, não houve mês em que o real não desvalorizasse, e quem usou cartão de crédito teve que pagar um chorinho no mês seguinte. Mas mesmo quando ocorre uma bonança cambial como a desses últimos meses — como entre dezembro de 2008 e julho de 2011, quando o dólar só fez baixar, baixar e baixar, saindo de R$ 2,30 e chegando a R$ 1,60 –, ninguém registra. O cartão de crédito internacional é a Geni dos economistas.

Não resisto a dar uma cornetada. Nesse ano, as formiguinhas (sensatas) que seguiram as indicações dos economistas, comprando dólar aos pouquinhos, acabaram pagando mais caro por suas viagens do que as cigarras (arriscadas) que deixaram seu dinheiro rendendo no banco e viajaram com cartão de crédito.

Calma no Brasil: não quero dizer que viajar com cartão de crédito seja mais barato. Aconteceu, virou manchete, não se sabe quando essa situação se repetirá. No momento em que o mercado parar de acreditar na equipe econômica, o dólar vai subir de novo. Mas eu queria aproveitar a oportunidade para lembrar mais uma vez que o cartão de crédito não é esse vilão todo — e, principalmente, que nem sempre o dinheiro vivo é garantia de economia. E não é por causa dessa questão da valorização/desvalorização, não. Há outros fatores em jogo. Tem paciência? Vem comigo.


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A supervalorização do dinheiro vivo e a vilanização do cartão

Cartão de crédito em viagem

Nada fez tão mal ao viajante brasileiro quanto a implantação desse maldito IOF de 6,38% para o cartão de crédito, estendido depois para os cartões de débito e pré-pagos. O brasileiro parece só ter olhos para esse número, 6,38%, esquecendo as outras variáveis que afetam o dinheiro, que são tão importantes quanto o IOF: as cotações de compra e venda das moedas aqui no Brasil e as cotações de compra e venda das moedas no país para onde se vai viajar.

OK, comprar euro para ir à Europa e dólar para ir aos Estados Unidos é simples. Basta dar uma pesquisada e comprar pelo menor valor. (Você faz pesquisa, certo? Por que se não fizer e comprar um dólar caro, boa parte dos 5,28% de diferença de IOF entre dinheiro vivo e cartão podem desaparecer de cara.)

Mas a coisa fica complicada mesmo quando você vai viajar para lugares onde precisa trocar esse dólar ou esse euro em casa de câmbio. Tem gente que foge dos 6,38% do IOF no Brasil, mas chega lá fora e faz câmbio no aeroporto, ou em fim de semana, por cotações 10% abaixo da cotação do cartão. Quando você vai a lugares onde tem mais turista do que gente, como Cancún, Cartagena, Atacama, pode ser que encontre cotações até 15% menores do que no centro da capital. Todo esse trabalhão que você teve de comprar dólar, levar na doleira, ir na casa de câmbio… só para perder mais dinheiro do que perderia usando cartão de crédito ou cartão pré-pago? Se o dinheiro vivo é um super-herói, então a casa de câmbio é a sua kriptonita.

A beleza dos cartões mora no fato de que sua cotação de conversão da moeda local para o dólar é uniforme. Quando você leva dólares em dinheiro vivo para a Colômbia e precisa trocar na casa de câmbio, vai encontrar uma cotação no aeroporto, outra no centro de Bogotá, outra no shopping, outra no fim de semana, outra em San Andrés; quanto mais longe do centro da capital e do horário bancário, pior a cotação. Mas se você paga com cartão, a cotação será a mesma para gastos no aeroporto, no centro de Bogotá, num shopping, no fim de semana, de madrugada ou em San Andrés.

Ou seja: se você não for ninja na hora de trocar esse dinheiro, é bem provável que a viagem com dinheiro vivo saia mais cara do que com cartão pré-pago, que não está sujeito a variação cambial — ou mesmo mais cara do que com cartão de crédito, se não houver desvalorização do real entre a data de fechamento da fatura e a data de pagamento.

Dinheiro vivo: as pegadinhas

Cartão de crédito em viagem

Todo mundo conhece as pegadinhas do cartão de crédito: o IOF de 6,38%, o risco da variação cambial, a possibilidade de dar problema com a senha. (Eu me precavenho levando mais de um cartão, e também um pré-pago com saldo baixinho, para carregar à distância numa emergência.)

E as pegadinhas do dinheiro vivo? O pessoal só se lembra de uma: a segurança, resolvida na maioria dos casos com o uso de uma doleira por debaixo do cinto. Mas tem outras.

Que moeda levar

A primeira dessas pegadinhas é a dúvida mais freqüente na caixa de comentários do Viaje na Viagem: que moeda que eu levo? Se a gente aprovasse todas essas perguntas, não faria outra coisa senão responder que moeda levo hoje pro Chile, se vale a pena comprar coroa sueca no Brasil, o que faço se vou pra Inglaterra e pra França na mesma viagem, se devo levar reais para o México, por que não devo comprar peso colombiano no Brasil, se levo dólares ou euro pra Tailândia…

Para responder a essas perguntas são necessárias várias contas difíceis de fazer, porque envolvem conceitos contra-intuitivos (quando a gente acha que tem que usar a cotação de compra, é para usar a cotação de venda; e vice-versa); às vezes você tem que multiplicar, outras vezes, dividir; e na internet você só consegue informação da cotação interbancária entre as moedas — não dá para descobrir quanto as casas de câmbio de Praga ou de Estocolmo ou de Bangkok estão pagando de fato pelo dólar ou pelo euro.

Muita gente já sai perdendo muito dinheiro comprando moedas fracas no Brasil (peso colombiano, peso mexicano, peso chileno, sol peruano), achando que está fazendo um ótimo negócio porque a cotação é baratinha. Não é um bom negócio. Essas moedas são vendidas entre 15% e 20% mais caras do que deveriam; deviam ser mais baratas ainda. Você perderia menos se levasse cartão de crédito.

Outros se iludem achando que, ao levar real para outros países, evitarão por completo o IOF e as perdas de fazer duplo câmbio (comprar dólar aqui e fazer novo câmbio lá fora). Outro raciocínio que só funciona no papel. O problema aí está na cotação do real lá fora. O real é tão valorizado no exterior quanto a farinha de mandioca. Comprar dólar aqui e trocar lá fora sempre vai render mais. Até para o Chile e para Buenos Aires está valendo a pena levar dólar neste momento.

Daí tem os que compram dólar para ir à Europa, porque o dólar é mais barato que o euro (e pagam a diferença, mais a comissão de um novo câmbio, ao precisar trocar de novo ao chegar). Ou compram euro para ir ao Reino Unido, seguindo o mesmo raciocínio. Ou ainda compram dólar australiano ou dólar canadense para viajar aos Estados Unidos — afinal, dólar é dólar, não é?

Quem viaja com cartão de crédito não perde um minuto de sono com essas dúvidas. O cartão de crédito é aceito em qualquer lugar e converte a moeda local para o dólar por uma boa cotação, próxima da cotação interbancária. Eu pago de bom grado os 6,38% de IOF para não me incomodar com isso. E encaro o risco de variação cambial como um seguro contra o risco de levar a moeda errada para qualquer país.

Onde fazer o câmbio

Cartão de crédito em viagem

Muita gente compra moeda estrangeira, viaja e volta sem se dar conta de que pode ter perdido muito dinheiro ao fazer câmbio em lugares que ofereceram cotações desvantajosas. Porque a maioria das pessoas faz o câmbio onde dá, não onde é melhor fazer. E com isso, todo aquele cuidado e esforço para não pagar os 6,38% do IOF do cartão (de crédito ou pré-pago) vai pelo ralo sem que a pessoa se dê conta. Porque geral só pensa no imposto; não leva em conta a cotação.

Para jogar esse jogo direito e fazer valer a pena o perrengue de comprar, transportar e trocar dinheiro vivo, é preciso saber que se deve trocar o mínimo indispensável em casas de câmbio de aeroportos e de shopping centers. E que quanto mais turística for a cidade, pior será a cotação, mesmo para o dólar. O câmbio que preserva o seu ganho com relação ao cartão de crédito é o que é feito nas casas de câmbio dos centros das capitais.

Cartão de crédito em viagem

(Às vezes, a gente perde um tempo enorme buscando a melhor cotação, e acaba de brinde levando uma nota falsa. Foi o que aconteceu comigo em Lima, pesquisando para o blog. Ganhei essa nota falsa de 100 soles que está na parte de baixo da foto — um prejuízo de R$ 115 reais, na época, numa troca de R$ 1.000.)

Quem viaja com cartão de crédito, de novo, não se preocupa com isso. Eu levo um pouco de dinheiro vivo para emergências e obtenho a moeda local para uso no dia a dia na chegada, fazendo um saque no caixa automático com meu cartão de conta corrente habilitado para saques internacionais.

Quando fazer o câmbio

Outra pegadinha desconhecida por muita gente que viaja com dinheiro vivo é que as cotações mudam de acordo com o horário. Durante o horário bancário, as casas de câmbio oferecem cotações mais competitivas; fora do expediente bancário e nos fins de semana, a cotação piora. Faça câmbio num fim de semana num shopping de lugar turístico, e os 6,38% do IOF dos cartões começarão a parecer um excelente negócio. Mas isso os repórteres de economia dos jornais ou os economistas que eles entrevistam não ensinam.

Daí, quando a pessoa lê aqui que isso acontece, bate o desespero. Vou chegar de madrugada em Santiago e já seguir para os Lagos, o que eu faço? Usa cartão, filho, você vai perder menos dinheiro. Socorro, chego em Buenos Aires na sexta à noite, como faço com o câmbio se as corretoras da calle Sarmiento só abrem na segunda-feira às 11h? Usa cartão, amiga, você vai ter perdas menores do que com o câmbio atual para reais do Banco Nación ou a cotação da Galerías Pacífico no fim de semana. A gente fala, mas sabe que não vai ser ouvido. Afinal, os repórteres de economia (que viajam muito pouco) e os economistas (que são teóricos) já falaram que é errado viajar com cartão de crédito. Quem vai acreditar numa Bóia?

Mas devo lembrar que quem viaja com cartão de crédito não precisa desviar um milímetro do seu roteiro para passar em casa de câmbio de centro da cidade em dia útil. Quem viaja com cartão de crédito não precisa ter uma estratégia específica para fazer as trocas de maneira a não faltar dinheiro durante a viagem. Quem viaja com cartão de crédito não precisa ficar fazendo conta para ver se a cotação desse lugar nesse momento está boa ou não. Eu simplesmente esqueço que os 6,38% são um imposto para o desgramado do governo e penso nesses 6,38% como uma taxa de conveniência para eu não esquentar a cabeça com nada disso. E, de novo, encaro o risco de desvalorização do real entre a data do fechamento da fatura e a data do pagamento como um seguro para o risco de eu perder algum passeio ou transtornar algum dia da minha viagem por causa de casa de câmbio.


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Então cartão de crédito é a maneira certa de viajar?

Não estou dizendo isso! O cartão de crédito é a maneira mais cômoda de viajar. Comparando com dinheiro vivo, é uma forma mais cara de viajar aos países de moeda forte (por causa do IOF), mas pode trazer vantagens para quem viaja a países onde teria que fazer um novo câmbio (porque oferece uma boa cotação da moeda local para dólar). Sempre vai ter o risco de desvalorização do real entre o fechamento da fatura e a data do pagamento (mas se houver uma valorização do real, a diferença será creditada); quem não quiser encarar esse risco sempre pode fazer um cartão pré-pago, que congela a moeda comprada pela cotação do dia da compra.

Este não é um post patrocinado (aliás, não entendo como os cartões de crédito não movem uma palha para explicar suas vantagens, ao menos para os repórteres de economia) e, para sua informação, já tomei todas as traulitadas possíveis de cartão de crédito. A maior delas: viajei no mês da maxidesvalorização de 1999; saí com o dólar a R$ 1,20 e paguei a conta com o dólar a R$ 2,20. Este blogueiro adverte: durante campanhas eleitorais e no início de mandatos de presidentes que mexam na economia, prefira o cartão pré-pago.

Então eu não recomendo para ninguém viajar com dinheiro vivo?

Cartão de crédito em viagem

Calmaê, eu não escrevi isso.

Se você vai para a Europa ou para os Estados Unidos e não se importa de levar bolos de dinheiro, pesquise o melhor euro ou o melhor dólar que puder comprar e vá firme. (Eu pago 6,38% de bom grado para não andar com doleira — mas cada um, cada um.)

Se você vai para países onde será preciso usar casas de câmbio e monta uma estratégia de câmbio que permita fazer trocas nos centros das capitais durante o expediente bancário, então o dinheiro vivo será a alternativa mais econômica.

Mas se você não é tão meticuloso, nem tem tempo sobrando para desviar seu roteiro para fazer o câmbio no lugar certo na hora certa, acredite: o IOF de 6,38% sairá mais barato do que a perda que você vai ter na casa de câmbio.

E se não quiser correr o risco da desvalorização cambial, simples: faça um pré-pago.

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102 comentários

Em 2018, fui à Montevideu, já informada sobre as vantagens do uso do cartão de crédito em restaurantes, bares e hotéis.
Além da devolução do IVA tive valores creditados na fatura seguinte, por causa de uma pequena valorização do real.
Então, fica a dica: dê preferência ao uso do cartão de crédito nos gastos em países que restituem o IVA. Se tiver sorte, do real valorizar, ainda recebe a diferença a mais na fatura.
Se a valorização não ocorrer, também não há perdas muito significativas.

Adorei teu post!
Considero o IOF insignicante para nossos gastos em viagens internacionais pela segurança que o cartão de crédito proporciona e acho um saco viajar de doleira e ficar guardando dinheiro em cofre!

Boia, sempre uso o cartão de crédito pelos motivos citados por você e nos retornos me dei ao trabalho de calcular a diferença se tivesse usado dinheiro em espécie comprado meses antes. O cartão foi mais vantajoso, mesmo com o IOF. Isso pqr a taxa de conversão do banco para o cartão fica um pouco abaixo do valor do câmbio para compra. Posso falar que nos últimos 8 anos sempre faço essa comparação depois que retorno. Meu banco(BB) tem uma taxa melhor de conversão para cartão do que a maioria mas acredito que mesmo nos outros bancos seja melhor. Vale dizer que nesse período não peguei grandes variações no valor do dólar, entre o momento da compra e o pagamento do cartão, porém quase sempre quando retornava das viagens o valor estava maior, principalmente nos últimos 3 anos. E usando o cartão de crédito vc ainda conta com pontos para milhas kkkkk.

Para reduzir os riscos da variação cambial, aplico os recursos destinados à viagem num fundo cambial, disponível em qualquer banco como opção de investimento. É difícil convencer as pessoas que na maioria das vezes é mais vantajoso usar o cartão de crédito do que fazer câmbio, que além da taxa desvantajosa tem também a tarifa pela operação. Dinheiro vivo só para pequenos gastos e por precaução.

Ótimas dicas, especialmente pra quem aqui vai por os pés em Ciudad del Este pela primeira vez na vida logo após o segundo turno da eleição hahaha

Boisa, alguma dica pra quem viaja agora pros EUA com essa cotação insana do dólar!? Época de eleição, como vc disse… ajuda please!!

Olá, estou com medo de fazer compras de ingressos para atrações na Europa pela internet, já que uma pessoa da minha família teve problemas com as taxas de conversão de Euro para Dólar e depois de Dólar para Real na compra de passagens aéreas e os custos a mais foram muito grandes. Queria saber se sempre acontece isso mesmo para compras de ingressos para atrações, contando com duas taxas de IOF.

    Olá, Luiza! O que você estranhou foi a cotação do dólar-turismo, que é superior à do dólar comercial que sai no jornal, ainda acrescido dos 6,38% do IOF, e talvez inflacionado por uma desvalorização do real entre a data da compra e a do pagamento da fatura. A conversão da moeda local para o dólar é feita por uma taxa próxima à cotação interbancária, é uma cotação justa. Não há duas cobranças de IOF, é uma só. Não há como escapar disso. Se você não comprar ingressos com antecedência vai ter que enfrentar filas enormes ou acabar perdendo o passeio.

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