Isabel O. pela França

La Roque Gageat, Dordogne
Em agosto a Isabel Oliveira e o Mário deixaram Setúbal e a sua amada Serra da Arrábida para trás e foram dar um rolê de carro de três semanas pela França. Preparem-se para se encantar a cada link. E sigam o conselho da Isabel: nada de ir ao Mont St.-Michel em agosto! :mrgreen:

Texto e fotos | Isabel Oliveira
Seis mil trezentos e quinze km e mil e quinhentas fotografias depois, eis-me chegada de uma viagem por França, que teria sido absolutamente perfeita, não fossem mais de três horas à espera de assistência para (re)carregar a bateria do carro, no parque de estacionamento do Mont Saint-Michel, umas 80 fotografias perdidas (marido armado em técnico a carregar em botõezinhos indevidos) e ter chovido horrores logo nas duas únicas paragens em que resolvemos armar em jovens aventureiros e… acampar (sim, é verdade fomos de tenda e objectos complementares atrás, que quase não usámos, tal era a trabalheira de os tirar e pôr no grande puzzle que era o nosso porta-bagagens).

A viagem abarcou quatro regiões, o que implicou uma disciplina férrea. Muitas foram as vezes que apetecia ficar mais, ou que foi preciso fazer opções difíceis – o que cortar? No mapa tudo parece mais pertinho…

Vou tentar ser sucinta em relação a cada uma delas. Para pormenores, seguirá esclarecimento mais detalhado.

Primeira região – Périgord Noir / Dordogne

Em termos absolutos é a menos badalada das quatro, mas, porventura, aquela que oferece maior diversidade … aí se situam as famosíssimas grutas de Lascaux (e muitos outros locais relevantes para quem se interessa por Pré-História), há imensas vilas e aldeias medievais fortificadas, castelos (foi aqui que viveu, no Château des Milandes, Josephine Baker), rios por onde se pode passear em canoa ou barcos tradicionais, cozinha forte e farta – esta é a região das trufas, do foie-gras…

Locais a não perder – Albi, Cordes-sur-Ciel, Domme, Sarlat, La Roque Gageac (local da foto acima).
Isabel no Château des Ormeaux

Segunda região – Vale do Loire

Quarto Couperin
Muita gente já por aqui andou, aconselhou, opinou. Vou ser mais uma… reforçando algumas dicas que fui lendo. Se se viaja de automóvel deve-se tirar partido do rio – parar nas margens, fazer pic-nic, olhar os castelos que se vão espraiando pelas margens, entrar nos vilarejos. Andar a contabilizar entradas em castelos não me pareceu uma boa opção, tanto mais que, convenhamos uns interiores são muitas vezes um bocadinho “fake”, com reconstituições concebidas no século XIX (o século de todas as mistificações historiográficas). Depois a época – fim de Julho, não era de todo propícia. Numa viagem grande tudo tem que ser bem gerido, e estar em filas ou ver as coisas com multidões à volta… cansa que se farta.

Visitámos os castelos de Villandry, Blois, Chambord (neste senti mesmo o peso de ter que viajar no Verão, isto porque ainda não tinha chegado ao Mont Saint-Michel). No de Amboise vimos um belíssimo espectáculo nocturno sobre a vida de Francisco I (aconselho a experiência – em França a História é mesmo bem vendida) e foi ao pé desta localidade que tive a 1ª primeira tarde de lazer e a sensação de rainha por um dia no nosso castelo, o Château des Ormeaux.

Todos os hóspedes tinham ido passear, ficámos com o espaço só para nós.

Terceira região – Normandia

Pelo caminho parámos em Chartres – sonho juvenil universitário, de quem fez um trabalho sobre o gótico francês e Giverny, uma belíssima surpresa, que me estava a passar ao lado. Este local é tão-só a casa de Claude Monet, onde ele criou os jardins que inspiraram tanta da sua pintura.


Recomendo incondicionalmente. Tem imensos visitantes. É melhor fazer como nós e não chegar muito cedo (de facto, nós chegámos frequentemente tarde porque queríamos VER TUDO).
Pit stop em Giverny
Na zona de Rouen (cidade encantadora que recomendo vivamente), visitámos abadias românicas junto ao Sena (Jumièges, uma ruína, é deveras interessante), e várias localidades, das quais destacaria La Bouille e Pont Audemer. A caminho de Caen passámos por Étretat (começaria aqui a nossa alimentação favorita – saborzinhos do mar), Honfleur (imperdível). Trouville e Deuville, estas duas só para ter uma noção física de uma estância turística antiga e chique. Para quem se interessa pelo fenómeno turístico e a sua génese, o Museu da Normandia, em Caen, tinha uma exposição muito interessante denominada “Destination Normandie – Deux Siècles de Tourisme” (até ao final de Outubro), abordando a importância da publicidade, a desenvolver-se concomitantemente (cartazes turísticos incríveis) , as barraquinhas (que ainda hoje se vêem em todas as praias tradicionais francesas, onde as pessoas se despiam…), o desenvolvimento dos transportes.

Caen é a base para quem parte em busca do itinerário do desembarque do DIA D. E é mesmo daí que deve sair, mas só depois de passar e ver demoradamente o Memorial, um Museu moderno, dinâmico, muitíssimo bem concebido, sobre o período da 2ª Guerra Mundial. Tão demoradamente fiquei que hipotequei um pouco o tempo disponível para as praias do desembarque. Começamos por um ponto-chave do desembarque – a Pegasus Bridge. Foi o primeiro local a ser libertado e na casa da primeira família há um pequeno restaurante cheio de memorabilia da 2ª Guerra. E eu aqui não resisto e tenho mesmo que fazer um parêntesis para comentar as condições de higiene na venda de produtos alimentares em França. O referido local nem tem um local para lavar as mãos (não foi o único em que isso aconteceu) podendo estar aberto… Em pastelarias e padarias absolutamente excepcionais no que toca o design, a apresentação dos produtos, a sua quantidade e qualidade, o pão e os bolos são apanhados com a mão, a mesma que no segundo seguinte está a mexer no dinheiro. Nos hotéis toda a gente mexe na baguete do hóspede seguinte para cortar a sua fatia, sem um guardanapo, uma pinça. Este tema tem sido objecto de polémica por cá, na blogosfera, por se considerarem demasiado exigentes as leis da EU. Entre alguns exageros cometidos, sobretudo no que toca os produtos regionais nas feiras, e isto, há todo um universo. Considerando ainda que na actual conjuntura todos os cuidados com a higiene nas mãos são necessários, confesso que vim chocada.

Continuando… a estrada marginal segue junto a pequenas localidades e demora-se muito mais tempo que os quilómetros no GPS sugeririam. Não deu para ver nenhum centro de interpretação (também com a vista ao Museu eu considerei-me suficientemente informada) e, desgosto total, perdemos, por quinze minutos, o grande Cemitério Americano de Omaha Beach). É o que dá viagem de Verão. A gente vê sempre sol e luz até às nove e descontrola-se com as horas. Para os interessados – fecha às 18h00. Para consolo, estivemos num local ao entardecer onde se sente bem a mística do desembarque – La Pointe du Hoc.
Pointe du Hoc
Perto fica Bayeux e a sua célebre tapeçaria da Batalha de Hastings, do século XI. Pois é, também não conseguimos chegar a tempo. Com milhares de turistas a circular em alto Verão, fechar tudo às 18h00 é uma tristeza. Quase tão mau como isso é os restaurantes já não servirem almoços a partir de certa hora. Ora com os pequenos-almoços dos hotéis a deixarem-nos confortáveis até às 14h/14h30 comer às 13h não apetecia mesmo nada. Nestas coisas eu realmente tenho que dizer “Viva a Espanha!” (em Portugal também as coisas nessa matéria se têm alterado muito para corresponder às mudanças de hábitos da procura).
E vamos lá ao Mont Saint-Michel. Ou melhor – se estiverem de férias em Agosto, a menos que sejam masoquistas ou estudantes de sociologia de massas, NÃO VÃO!!!

Ora como eu estava de férias em Agosto, já não tinha outra oportunidade e queria muito lá ir (culpa sua Riq – depois daquelas suas fotografias não pensei noutra coisa) … fui. Agora, fui, mas com alguns truques na manga. Primeiro – chegar mais para o fim da tarde (a entrada para o Parque 1, destinado a quem tem hotel foi lenta, lenta, mas pior era a faixa oposta, da saída, nem se mexia), levar o mínimo necessário numa mochila às costas (tudo o resto fica no carro sossegadinho), enfrentar estoicamente a subida para o hotel no meio de uma multidão compacta, num dia de calor abafado, descansar e recuperar meia horinha no hotel… e comprar bilhete para visitar a abadia na última fornada – às 18h00. Na descida do monumento até se conseguem uns momentinhos a sós, criando a ilusão breve, mas agradável, de sermos os únicos que andamos por ali. Depois ainda temos todo o tempo para jantar numa esplanada com vista para a água (no Chez Mado), caminhar pela areia, pelas muralhas. Pelo que tinha lido pensei que à noite estivesse muito melhor, mas só estava melhor. Das inúmeras autocaravanas da zona e hotéis circundantes vêm à mesma centenas de passeantes. Na manhã seguinte a dica é passear antes do pequeno-almoço. Eu bem espreitei pela janelinha do quarto e consegui ver a calçada da rua. Mas a fome falou mais alto e quando nos decidimos a pôr um pé fora do hotel… eles já tinham chegado de novo e desistimos (é que nem vos passa pela cabeça – passa, se andarem de metro à hora de ponta nas vossas cidades).
Rua principal de manhã
Rua principal às 6 da tarde

Ficámos no último andar do hotel Le Mouton Blanc. Acho que o quarto não valia assim tanto os 90 euros nem o pequeno-almoço os 18. Mas era engraçadinho, com ar de águas furtadas, uma trave de madeira, uma janelinha de onde se vislumbrava de frente a abadia. E o gosto de ver a rua mais ou menos vazia de manhã.

Quarta região – Bretagne

Também por aqui segui indicações que fui lendo no blogue, nomeadamente sugestões para não perder Cancale, Saint-Malo (muito giro), Quimper (domingo – tudo muito fechadinho; tem um interessante museu sobre o universo bretão), Concarneau, Pont-Aven… Mas acrescentaria – Fougères e Vitré (locais com castelos e fortificações), Cabo Fréhel e sobretudo Locronan, um local pequenino encantador, com um comércio bretão convidativo irresistível. É possível aí conviver com o cemitério no espaço da igreja (característica bretã) e apreciar a as cruzes de pedra que povoam esses espaços de uma maneira singela e única. Foi daí que perdemos as fotos bem como de um outro local absolutamente aconselhável – Dinan. É lindo ver como tantos locais preservaram os seus centros históricos, com casas de madeira ancestrais, bem apresentadas e adornadas de uma profusão de flores coloridas. Também aí se podem fazer deliciosos cruzeiros pelo rio Rance.
Em Pont-Aven, calçando Melissa
Na zona dormimos, por acaso – fomos encaminhados por um hotel, num sítio maravilhoso chamado Castel Braz, em Pont-Aven. Os donos são pessoas viajadas, muito interessantes, com um ar aristocrata e cosmopolita, mas totalmente à vontade, sem pretensões. O dono anda permanentemente descalço, sorrindo através de uns bigodes revirados.

Pont-Aven merece uma paragem com tempo para usufruir. É um local onde de vê água permanentemente, com pontes, moinhos, lojinhas de biscoitos (as galettes de Pont-Aven).

A volta

Ainda metemos o nariz por baías e vilórias, (pena não termos conhecido o Noroeste, acima de Brest – a Costa do Granito Rosa) acabando em Nantes e Bordéus [Bordeaux, N. do T.]. No primeiro local, mais um museu recente e interessantíssimo, com a rica história desta cidade. Muito ilustrativa a parte relacionada com o tráfico negreiro para a América.

Reunindo ainda umas forçazinhas ainda “batemos” San Sebastián (as terras espanholas têm sempre imenso para dar…), Bilbao (estava mortinha por ir ao Guggenheim, e de facto o edifício é extraordinário, arrastando milhares de pessoas a uma cidade que há uns anos estava completamente obliterada por San Sebastián ou Santander, também no País Basco) e Tordesilhas, o local que, no fundo, está na génese do acto que permitiu que hoje eu não tivesse que traduzir este texto para castelhano para que me entendessem por aí.

Terminámos? Não. Em Portugal ainda passámos por Belmonte, para conhecer o novo museu dedicado a Cabral e à sua viagem, chamado “À Descoberta do Novo Mundo”. A parte dedicada ao Brasil (actual) é muito interactiva, dinâmica e divertida.

Brava, Isabel! Agora o único problema vai ser convencer a malta de que esta viagem não dá para repetir em uma semana

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72 comentários

Fiz um roteiro pela Normandia e Bretanha por carro. Esse me pareceu o melhor meio de transporte para visitar as pequenas cidades dessas regiões, mas ficam aqui alguns alertas importantes para quem for alugar carro na Europa:
Cuidado 1) o preço previamente reservado pelo site pode subir em mais de 100% por causa do seguro especial. E se você não optar por um deles irá pagar uma franquia absurdamente alta, caso aconteça algum imprevisto.
Cuidado 2) os pedágios na França são um tanto traumáticos. As rodovias administradas pela COFIROUTE cobram preços excessivamente alto pelos pedágios, mesmo em distâncias pequenas e não aceitam cartão de crédito não franceses, mesmo internacionais. Se for pagar dinheiro, lembre-se que as máquinas, quando o aceitam, só recebem notas até 20 euros. Um absurdo que pode causar atropelos inesperados, como ser obrigado a pagar o pedágio por ordem bancária posteriormente.

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