Edimburgo

Edimburgo: o fascínio de uma cidade ao mesmo tempo fofinha e sinistra

Edimburgo

Em que século estamos, mesmo? Em Edimburgo, os arranha-céus são o oposto daqueles de Dubai ou Hong Kong — admirar o horizonte é viajar ao passado, em vez de vislumbrar o futuro. Capital da Escócia desde 1437, Edimburgo acumula muita história, e as tradições escocesas misturadas às lendas locais dão à cidade ares bem sombrios… o que é bastante divertido!

New Town

A área mais turística de Edimburgo compreende Old Town (a cidade velha) e New Town (a cidade nova). New Town não é tão nova assim; já se vão 250 anos da sua fundação. Pouco antes disso, toda a cidade se concentrava em apenas um corredor e ruelas transversais entre a fortaleza do Castelo de Edimburgo e o palácio de Holyrood House. Era em um arranjo caótico e insalubre, mas interessante: pobres e ricos acabavam vivendo tudo-junto-e-misturado, ocupando os mesmos cortiços.

Old Town

Hoje, o furdunço é outro. Entre o castelo e o palácio o que se vê são tocadores de gaita de fole, grandes grupos de excursão, mil e uma lojinhas de souvenir e algum eventual imitador esforçado de William Wallace na versão pouco verídica de Mel Gibson em Braveheart.

Turística, mas adorável na mesma medida, Edimburgo é uma excelente introdução à Escócia. Veja dicas de lugares e passeios para aproveitar na sua passagem por lá:

Tartan, a estampa nacional

Catálogo de clãs e estampas

O xadrez é dos maiores símbolos nacionais da Escócia, onde o padrão é conhecido como tartan. A tradição começou nas Highlands, onde o tartan se tornou um elemento de identidade tão importante que chegou a ser proibido pelo governo britânico em meados do século XVIII, ao sair vitorioso da Batalha de Culloden sobre os rebeldes jacobitas escoceses. Não demorou muito para o tartan voltar com tudo e ser adotado mais amplamente na Escócia, com milhares de desenhos distintos registrados, representando principalmente clãs ou famílias escocesas.

ANTA

Em Edimburgo, onde até os assentos dos ônibus têm estampa xadrez, não é nada difícil encontrar uma lembrancinha em tartan tradicional para levar para casa. Mas, para tartan não-tradicional, não encontrei qualquer lugar como a ANTA, uma delícia de loja de acessórios e decoração.

ANTA

A ANTA é daquelas lojas de cheirinho bom. O espaçoso showroom em Edimburgo fica no número 119 da George Street, a principal rua em New Town. Por lá, tudo é xadrez e em tom pastel. As louças pintadas à mão são uma lindeza, e também as bolsas e almofadas de lã 100% feitas na Escócia. Design exclusivo e feito à mão não é barato em nenhum lugar, especialmente quando o preço está em libras, mas para aliviar o bolso, toda terça-feira algum produto entra em promoção.

Victoria St e Grassmarket: fofura… e morbidez

Victoria St

Em Old Town, pertinho da Royal Mile, a colorida Victoria Street é uma coleção de pequenos restaurantes e lojas independentes, ou de cadeias locais, como a I. J. Mellis (nº 30A).

I. J. Mellis

Nela, os deliciosos queijos escoceses têm a companhia de variedades de toda a Europa, e cada um é descrito em toda sua intimidade, como este, chamado Corra Linn: “um queijo de leite de ovelha duro, maturado, feito por Seina Cairns, filha do famoso queijeiro Humphrey Errington.” (E isso não era nem metade da ficha.)

I. J. Mellis

Nas prateleiras onde não há queijos, estão à venda outras coisas que vão muito bem com queijo, como ovos, pães e marmelada.

Museum Context

A rua é pequena, mas tem jóias como a simpática loja de presentes e bricabraques Museum Context (nº 40), que tem postais, panos de prato e canecas inspirados em lendas e costumes escoceses; a “deli líquida” Demijohn (nº 32), que vende bebidas feitas artesanalmente por produtores locais (duas palavras: ginger wine), e a Oink (nº 34), que nada mais serve senão sanduíche de leitão assado, e apenas enquanto durar o leitão.

Grassmarket

E a quem parecer que um leitão assado inteiro, exposto numa vitrine com cabeça e tudo, é algo repugnante demais, vale saber que a poucos metros dali, rua abaixo, existiu um dos principais palcos para execuções públicas de Edimburgo, na praça chamada Grassmarket.

Grassmarket

Os macabros espetáculos aconteceram no Grassmarket por mais de um século, até 1784. Estando em Edimburgo, é inevitável escutar um causo ou outro sobre alguns pobres coitados que acabaram na forca e se tornaram uma espécie de celebridade post-mortem. Se bem que, num dos casos, a enforcada não morreu

Quem tem medo da cozinha escocesa?

Haggis

A Escócia não é conhecida exatamente por sua culinária. Ou melhor: até é, mas não com a melhor das reputações. A cozinha típica escocesa tem como base ingredientes prosaicos, como aveia, cevada, batata, nabo e miúdos, e seu prato mais famoso, o haggis, desperta paixões pela antiga tradição de ser servido no estômago de uma ovelha.

Encontrar haggis em Edimburgo não é difícil. O prato faz parte dos cardápios dos pubs e chippies (as lanchonetes de fish and chips), dos restaurantes bacanas e gastropubs, e está à venda em supermercados. Antes que se imagine estômagos de ovelha dividindo prateleira com presuntos e salames, o haggis é comercializado em invólucros como os de lingüiça. Nos restaurantes, chega ao prato já sem “embalagem”. A apresentação e a consistência não são tão diferentes às da nossa familiar carne moída.

Eat Walk Edinburgh

O Eat Walk Edinburgh combina andança e comilança de pratos típicos e não tão típicos durante 3 horas e meia de passeio a pé. Leva a bares e restaurantes da Old Town e da New Town, intercalando degustações com curiosidades e dados históricos sobre Edimburgo. É um passeio bem bacana para quem acaba de chegar na cidade, pois dá uma boa visão geral do centro. Os locais visitados e pratos oferecidos podem variar, mas no circuito sempre entram haggis, black pudding e whisky — que, junto com o mingau de aveia e o cranachan, poderiam compor a cesta básica na Escócia.

Haggis

Para os menos corajosos, o tour é especialmente recomendado; os restaurantes são muito bem escolhidos, descolados e até elegantes, e quem não gostar dos pratos mais típicos tem chance de comer outras coisas gostosas e menos controversas.

Já quem é do time que não foge de uma dobradinha, buchada ou sarapatel, pode ficar mesmo à vontade para provar os miúdos à moda escocesa em qualquer pub bem apessoado. O haggis normalmente é servido com purê de batata e nabo (“haggis, neeps and tatties”), um prato com jeito de comidinha da mamãe que vai muito bem naquele frio todo em Edimburgo. É gostoso. Juro.

Se eu tive alguma decepção com a culinária da Escócia, não foi culpa dos escoceses. Descobri que o famoso Scotch Egg, conhecido nos botequins cariocas como bolovo, na verdade não foi inventado (e nem é popular) na Escócia, mas sim na Inglaterra. Que pegadinha!

Histórias de bar

Greyfriars Bobby

Pubs são atração turística em todo o Reino Unido, e em Edimburgo muitos deles têm história para contar. Não raro essas histórias estão impressas em painéis nas laterais dos estabelecimentos, estampando com orgulho sua contribuição ao folclore urbano local.

Greyfriars Bobby

Próximo à Victoria Street, o Greyfriars Bobby (30 Candlemaker Road) é dos mais conhecidos pubs folclóricos de Edimburgo. Faz uma homenagem a Bobby, um cachorro terrier que teria visitado o túmulo de seu dono, vítima de tuberculose, diariamente durante um período de 14 anos. Dizem as más línguas que Bobby voltava sempre ao túmulo porque recebia comida no cemitério, e também que pode ter existido mais de um Bobby durante todo esse tempo. Não sei quanto a você, mas eu prefiro não acreditar nos detratores. Quem é insensível o bastante para não se comover com uma história de cachorrinho?

Deacon Brodie's

Não longe dali, a Royal Mile também tem seus pubs folclóricos: o Deacon Brodie’s Tavern (435 Lawnmarket) foi batizado com o nome de um membro da câmara municipal que era um bom cidadão na luz do dia, mas roubava para pagar suas dívidas com o jogo à noite, e o World’s End (2 High St.), construído no ponto onde uma muralha demarcava os limites seguros da cidade Edimburgo, no século XVI.

Há lugares um pouco menos turísticos para se tomar um pint em Edimburgo, mas uma cidade é sempre mais bacana quando seus bares são uma instituição cultural.

Uma Edimburgo sinistra

Edimburgo à noite

Edimburgo tem um passado obscuro que não deve ser mais assustador do que o de qualquer outra cidade igualmente antiga, mas a capital da Escócia soube tirar vantagem dele.

Museu Nacional da Escócia

Museu Nacional da Escócia

No (espetacular) Museu Nacional da Escócia (Chambers St.), a exibição sobre a história do país não esconde seus capítulos mais cruéis. Estão ali uma guilhotina de 4 metros que trabalhou por quase 150 anos entre os séculos XVI e XVIII, instrumentos de tortura usados contra mulheres acusadas de bruxaria, e o molde do túmulo da rainha Mary, executada com um golpe de machado em 1587.

Também no museu estão pequenos caixões de madeira com figuras humanas esculpidas que, segundo conta a lenda, representam as vítimas dos contrabandistas de corpos Hare e Burke, que agiam em Edimburgo no início do século XIX.

As histórias deste período em que a venda de cadáveres para a ciência se tornou um negócio extremamente lucrativo na cidade são absolutamente fantásticas, e ainda mais assustadoras por terem acontecido de verdade.

The Dark Side Tour

Em Edimburgo, várias companhias oferecem tours noturnos que contam essas e outras histórias. Alguns têm pinta de armadilha para turista, com atores vestindo fantasias e ônibus “mal-assombrados”. O passeio que escolhi, The Dark Side, é mais divertido do que apavorante — o guia narra histórias e lendas de maneira bem humorada, sem truques ou sustos, em uma caminhada de 2 horas entre New Town e Old Town (é bom ter bateria no celular para poder usar a lanterna; há escadas e ladeiras pelo caminho).

Cemitério de Calton

O único lugar que dá um medinho de entrar é o cemitério de Calton porque, convenhamos, é um cemitério. Há saídas em espanhol e em inglês, e o público é jovem, em sua maioria, mas é um passeio que amantes de histórias de terror de qualquer idade vão adorar.

Precisando de uma dose extra de emoção, este outro passeio também fala sobre histórias como as de Hare e Burke, e leva aos porões da cidade. (Que medo!)

E que sua viagem a Edimburgo seja um assombro! :mrgreen:

Mariana viajou a convite do VisitBritain.

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26 comentários

Amei sua matéria!
Estando indo passar o Réveillon em Edimburgo.
Obrigado pelas dicas.
E já vou incluir na bagagem uma lanterna.
Teresa

Sensacional. Estou indo para Edimburgo para o Reveillon e espero conseguir visitar todos esses lugares e viver essas experiências, mas com certeza a cidade estará lotada. Enfim, valeu pelo post, vou aproveitar todas as dicas 🙂

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