Salvador: ao encontro do sincretismo e dos orixás 1

Salvador: ao encontro do sincretismo e dos orixás

Festa de Iemanjá, Rio Vermelho

| Rosas brancas para Iemanjá, no Rio Vermelho |

O que torna Salvador diferente de qualquer outro destino no Brasil é o caldo de cultura afro-baiana. Da comida de rua à música às bijuterias à cor que se deve vestir na sexta-feira (branco!), a vida na cidade é fortemente influenciada pelo candomblé e pelo sincretismo (a apropriação de ícones e rituais católicos para cultuar os orixás).

No seu hotel você deve encontrar panfletos oferecendo idas a terreiros de candomblé. Nunca fui dessa maneira, e intuo que a possibilidade de acabar numa arapuca-pra-turistas seja grande. O jeito de fazer uma visita ou participar de uma celebração autêntica num terreiro é por meio de algum freqüentador.

Mas você não precisa ir a um terreiro para entrar em contato com esse universo. O sincretismo está na rua, e suas festas e cerimônias são abertas a quem quiser participar. E os rituais para os orixás nos terreiros servem como base para o belíssimo espetáculo que o Balé Folclórico da Bahia encena nas noites de segunda a sábado num teatro do Pelourinho.

–> FESTAS DE LARGO

Casa de Iemanjá

[Casa de Iemanjá, dia 2 de fevereiro]

O verão em Salvador é caracterizado pelas festas populares que os soteropolitanos conhecem por “festas de largo”, por estarem associadas a igrejas. Eu costumo dizer que o Carnaval é apenas a apoteose dessa temporada de festas.

Atenção: vá a qualquer festa de largo como você iria à pipoca do Carnaval: sem nada nos bolsos. Graças às festas de rua, o carteirismo é uma arte que não morreu em Salvador. Tudo o que você levar no bolso poderá virar oferenda ao ladrão mão-leve. Nas aglomerações, o método um-esbarra-o-outro-surrupia é infalível. Use uma doleira, e leve o essencial para não passar fome nem sede e conseguir voltar para casa.

A festa que abre o verão é a de Santa Bárbara (Iansã), dia 4 de dezembro. A saída da procissão é a igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, no Pelourinho. Veste-se vermelho em homenagem a Iansã.

Logo em seguida, dia 8 de dezembro, é comemorada Nossa Senhora da Conceição (Oxum). A festa é em frente à igreja de Nossa Senhora da Conceição da Praia, ao lado do Elevador Lacerda. Há procissão pelo Comércio, ali na Cidade Baixa.

Lavagem do Bonfim

[Lavagem do Bonfim]

A Lavagem do Bonfim homenageia Oxalá e acontece na segunda quinta-feira de janeiro depois do Dia de Reis (6 de janeiro). Em 2014 a lavagem acontece dia 16; em 2015, dia 15; em 2016, dia 14. O cortejo sai da Conceição da Praia, ao lado do Elevador Lacerda. A etiqueta manda ir de branco. Eu conto minha experiência aqui.

Rio Vermelho

[Rio Vermelho, 2 de fevereiro]

A festa de Iemanjá é a única entre as mais importantes que não é vinculada a nenhum santo católico. Acontece dia 2 de fevereiro, no Rio Vermelho, onde fica a casa de Iemanjá. O ritual consiste em deixar um presente na casa, que será levado a alto mar pelos pescadores do Rio Vermelho. Mas se você não quiser enfrentar a fila dos presentadores, pode contratar um barqueiro e ir jogar pessoalmente sua oferenda no mar 😀 Depois de presentear a Rainha do Mar, o costume é traçar uma feijoada.

Fora da temporada de verão, uma festa interessantíssima é a de Cosme e Damião (os gêmeos Ibejis, filhos de Xangô e Iansã), dia 27 de setembro. Por toda cidade organizam-se carurus (conhece não? É tipo um babaganouch de quiabo — olha que definição chique). Se você tem amigos em Salvador, certamente será convidado para um. (Se você não come quiabo, não se preocupe: o caruru é só uma desculpa para um banquete baiano completo. A Jana Calaça do Jeguiando conta tudo aqui.)

–> MISSA AFRO NA IGREJA DE NOSSA SENHORA DO ROSÁRIO DOS PRETOS

Igreja do Rosário dos PretosIgreja do Carmo (quando o Rosário dos Pretos estava em reforma)

[Missa afro 3a. feira no Pelô]

O melhor dia para ir ao Pelourinho é a terça-feira. Chegue no meio da tarde. Passe na Galeria Pierre Verger, perto do largo do Elevador Lacerda, visite o Mosteiro de São Bento (não se engane com as portas da igreja fechadas; a entrada é pelo prédio à direita, três portas adiante) e esteja na Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos (a igreja azul do largo do Pelô) lá pelas 17h40.

A missa é só às 6 da tarde, mas recomendo chegar com esses vinte minutos de antecedência para pegar um lugar sentado. O ideal é numa das primeiras fileiras do lado esquerdo. Assim você estará perto do que faz a missa ser especial: os instrumentos de percussão que vão acompanhar toda a celebração nas batidas de afoxé e samba.

O momento mais sincrético é o ofertório, quando mulheres (primeiro) e homens vão da porta da igreja ao altar trazendo pães que serão abençoados, numa coreografia que seria tida como profana fora dali.

Depois da missa, você pode ir ao show (grátis) de Gerônimo na escadaria do Paço, na ladeira do Carmo, ou (na temporada) ao ensaio do Olodum, ou ainda (se tiver ingresso) à apresentação do Balé Folclórico da Bahia. Leia mais sobre a Terça da Bênção aqui.

–> BANHO DE PIPOCA NA IGREJA DE SÃO LÁZARO E SÃO ROQUE

São LázaroSão Lázaro

[Igreja de São Lázaro e São Roque,  2a. feira]

Esta é uma das igrejas mais antigas de Salvador; fica no Alto das Pombas, no bairro da Federação (fácil de chegar tanto do Rio Vermelho quanto da Barra). É freqüentada por negros desde a época da escravidão; seus santos sincretizam os orixás Omolu e Obaluayê, ligados à cura de doenças.

Toda segunda-feira, às 6 da tarde, acontece uma missa de sonoridade afro bem menos conhecida que a do Pelourinho. O sincretismo aqui é ainda mais escancarado: na porta da igreja, mães de santo estão a postos para dar banhos (purificadores) de pipoca em quem pedir. (Deixe um agrado depois do banho — uns R$ 10.)

No meio da missa, as mães de santo entram na igreja e jogam pétalas de rosa nos fiéis.

–> BALÉ FOLCLÓRICO DA BAHIA

Balé Folclórico da Bahia

[Balé Folclórico da Bahia]

De segunda a sábado, às 20h, os gringos lotam as arquibancadas do Teatro Miguel Santana, no Pelourinho (rua Gregório de Matos, 49) para ver o espetáculo do Balé Folclórico da Bahia.

Os brasileiros não sabem o que estão perdendo. A direção de arte é magnífica; uma parte do grupo está em constantes turnês internacionais. Em pouco mais de uma hora de show, os principais orixás são apresentados, cada um com seu toque de tambor e sua coreografia. É uma lindeza.

Há ainda um número de dança de fogo e outro de capoeira (mas esses são mais pra gringo, mesmo…)

Chegue às 19h30 para conseguir ingresso (custa R$ 40). Emende com um jantar no Maria Mata Mouro ou no italiano L’Arcangelo (sucessor do La Figa).

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