Paris

Ricardo Freire
por Ricardo Freire

Paris: onde comer

Numa cidade tão obcecada por comida de qualidade, a pergunta mais útil é: "Onde não comer?". Fuja daquele tipo de restaurante -- estrategicamente localizado nas imediações de cartões-postais -- que captura passantes com cartazes em inglês e promessas de "menu touristique" ou "formule touristique". (O problema não são as palavras "menu" ou "formule", que são comuns a todos os restaurantes franceses; o que dispara o alarme é a palavra "touristique"). O resto está valendo -- cuide apenas para casar o seu paladar (e o seu bolso!) com o que é servido.

Mas antes de sair escolhendo seu restaurante, vale a pena entender os hábitos locais -- até para traçar uma estratégia gastronômica.

Café da manhã

O café da manhã (petit déjeuner) normalmente não está incluído na diária dos hotéis. Custa entre 8 e 12 euros. Quando é servido como buffet, vale a pena -- você vai encontrar café, leite, suco de laranja, baguette, croissant, pain au chocolat, manteiga, geléia, iogurte, alguma fruta (banana provavelmente), talvez um cereal ou granola. Pedir todos esses itens separadamente num café sairia mais caro. Mas se você se contenta com um café au lait e um croissant ou tartine (baguette com manteiga), pagará mais barato (tipo 5 euros) fora do hotel. De todo modo, explore a vizinhança; pode haver um café ou restaurante simpático com uma formule petit déjeuner interessante a 9 ou 10 euros.

Almoço em restaurante

O almoço (déjeuner) é servido das 12h às 14h ou 14h30. É o momento do dia com a melhor relação custo x benefício (perdão: como o melhor rapport qualité-prix) para uma refeição sentada.

Todo restaurante ou bistrô vai oferecer uma menu com entrada, prato e sobremesa. Você também pode optar pela formule, que é um modo reduzido do menu: entrada + prato ou prato + sobremesa. Eventualmente uma taça de vinho pode estar incluída.

Cada vez mais restaurantes também oferecem um plat du jour, uma refeição de um prato só, que até há alguns anos seria impensável na França.

Esteja preparado para se aventurar gastronomicamente: os menus e formules mais em conta raramente trarão carnes consideradas de primeira pelo seu açougueiro. Os franceses são onívoros e não desdenham nenhuma parte do boi, do porco ou do cordeiro. (Se fizer questão de um bife com batatas fritas -- steak frites --, consulte o cardápio -- a carte.) É raro um prato vir acompanhado por arroz; o carboidrato mais presente no prato é a batata. Fora do prato, porém, sempre será servida uma cestinha de pão.

Quanto custa almoçar em restaurante ou bistrô? É possível encontrar plats du jour em torno de 10 euros, formules de dois pratos a 12/15 euros e menus de três pratos a menos de 20 euros. Em restaurantes ou bistrôs com pretensões gastronômicas, porém, espere encontrar formules acima de 25 euros e menus a partir de 30 euros. Os restaurantes são obrigados a afixar os cardápios, com preços, na vitrine; o preço e a composição dos menus e formules costumam aparecer num quadro negro. O serviço está sempre incluído; mas se quiser deixar alguns euros para o garçom, ele obviamente vai apreciar. Para economizar, lembre-se de pedir "une carafe d'eau" (ünn carráf dô): a água da torneira é perfeitamente potável e só os muito esnobes não pedem. Uma taça (un verre, ã vérr) ou uma jarrinha (un pichet, ã pichê) de vinho sairão mais barato que uma Coca-Cola ou uma garrafa de água mineral.

No almoço, reservar é indispensável em restaurantes e bistrôs com alguma fama, mas é desnecessário em restaurantes de bairro ou sem maiores pretensões gastronômicas.

Jantar em restaurante

O jantar (dîner) é servido entre 19h e 22h30; os franceses gostam de marcar suas reservas para as 20h30.

Todo restaurante costuma oferecer dois ou três menus com preços diferentes de acordo com o valor do ingredientes. Os lugares com maior pretensão gastronômica vão oferecer também menus de 4 pratos (entrada, peixe, carne e sobremesa) e talvez um menu-dégustation com vários pratinhos, ou ainda um menu-surprise, com vários pratinhos não-anunciados. Se você não é familiarizado com a cozinha francesa, de novo esteja ciente de que mesmo nos menus de 3 pratos haverá pelo menos uma variedade de proteína da qual sua mãe nunca ouviu falar. Se não quiser se aventurar, examine o cardápio (carte), onde deve haver opções mais convencionais. Pouquíssimos pratos são acompanhados por arroz; quando há carboidrato, o mais comum é a batata. Mas a cestinha de pão costuma ser renovada durante a refeição. Entre o último prato e a sobremesa podem ser oferecidos queijos (serão cobrados à parte).

Quanto custa jantar em restaurante ou bistrô? Espere encontrar menus de 30 a 60 euros na maioria dos lugares (e daí pra estratosfera nos restaurantes estrelados). Você encontra o preço dos menus nos sites dos restaurantes, no guia Le Fooding e no site de reservas La Fourchette. O serviço está sempre incluído; mas se quiser deixar alguns euros para o garçom, ele obviamente vai apreciar. Para economizar, lembre-se de pedir "une carafe d'eau" (ünn carráf dô) -- a água da torneira, que em Paris é perfeitamente potável e só os muito esnobes não pedem. Uma taça (un verre, ã vérr) ou uma jarrinha (un pichet, ã pichê) de vinho sairão mais em conta do que refrigerante ou água mineral (restaurantes mais finos, porém, dificilmente venderão pichet, nem terão vinhos muito baratos em taça).

No jantar, reservar é indispensável em restaurantes e bistrôs com alguma fama, e recomendável até mesmo para bistrozinhos de bairro. Reserve com antecedência de alguns dias; em lugares mais badalados, vale a pena reservar algumas semanas antes. O jeito mais fácil de reservar é por email, usando o site do restaurante. O site La Fourchette oferece reservas com confirmação em tempo real, mas sua penetração não é tão grande quanto a do Opentable nos Estados Unidos e na Inglaterra.

Qual é a diferença entre restaurante e bistrô?

Hoje em dia, só o nível de conforto. Bistrô é um restaurante menor e mais simples, sem os luxos e a estrutura associados aos grandes restaurantes. Desde a década de 90, quando os custos de manter um grande restaurante foram se tornando impraticáveis, muitos chefs de peso passaram a abrir bistrôs. Começava a onda dos bistronomiques: bistrôs gastronômicos. No fim das contas, a classificação bistrô ou restaurante é escolhida pelo dono do lugar.

Alternativas a restaurantes e bistrôs

As brasseries têm cara de restaurante, jeito de restaurante, mas funcionam de um jeito diferente dos restaurantes franceses: não requerem reserva, são barulhentas como bares, servem comida até mais tarde (duas delas, Au Pied de Cochon e La Coupole, permanecem abertas entre almoço e jantar) e não fazem cara feia se você pedir um prato só. Se a brasserie está lotada, você entra na fila e aguarda. Ou seja: as brasseries funcionam exatamente como os restaurantes no Brasil smile Ao pé da letra, o nome quer dizer "cervejaria", mas o que gostam mais de vender é champagne. Hoje em dia são lugares bastante turísticos -- mas ainda assim, são tão parisienses que valem a visita (e quebram um senhor galho para aquele dia em que você só vai poder sentar para jantar às 10 e meia da noite). São mais caros do que os cafés. A melhor extravagância é partilhar pratos de frutos de mar, que chegam frescos todos os dias e são mantidos em tanques de gelo.

Os cafés são uma boa saída para refeições sentadas a preço palatável. Duas pedidas superparisienses são a quiche com salada e o croque-monsieur (misto quente gratinado) ou croque-madame (com ovo por cima) com frites. Cafés não fecham entre almoço e jantar. Mas atenção: perto dos cartões-postais, o seu croque-monsieur pode custar mais caro que uma formule num bistrozinho a algumas quadras dali.

Restaurantes "étnicos" são a melhor alternativa para economizar e comer bem (isto é, desde que você curta a cozinha em questão). Vietnamitas, cambojanos e laocianos costumam ser bastante autênticos; muitos tailandeses, porém, pertencem a chineses. Em restaurantes asiáticos em geral não há necessidade de optar por menus, e os pratos podem ser divididos (mas peçam pelo menos um prato por pessoa, porque as porções não são enormes). Belleville e o 13e. arrondissement são bons lugares para encontrar asiáticos; a rue Sainte-Anne, no 2e. arrondissement, concentra os restaurantezinhos japoneses (os que servem pratos quentes são bem mais em conta do que os que servem sushi).

Traîteurs são o que hoje no Brasil chamamos de "delicatessens": vendem comida quente pronta. Muitos têm mesas onde você pode comer no local (sur place) aquilo que acabou de comprar. É um nicho cada vez mais dominado por chineses. Nesses traîteurs baratinhos, a qualidade costuma ser inferior à de restaurantezinhos de verdade -- mas dá para fazer refeição propriamente dita pagando menos que numa lanchonete.

Fast food também tem -- desde as redes americanas até lanchonetes especializadas em kebab, faláfel, pizza por pedaço e comida japonesa.

Comida de rua: quiosques ou portinhas vendendo sanduíches na baguette e pães doces (pain aux raisins, pain au chocolat) são onipresentes (mas difíceis de achar à noite). As portinhas de sandwich grec (kebab, churrasquinho grego) dominam as ruas mais movimentadas do Quartier Latin. Meu fraco são as barracas que fazem crepes, com recheios salgados (queijo, presunto, ovo) ou doce (Nutella, chocolate, coco). Se passar por uma que anuncie "galettes", experimente: são crepes salgadas da Bretanha feitas com trigo sarraceno (escuro e al dente). No inverno, os vendedores de castanhas (marrons) assadas se multiplicam pelas ruas; o perfume é (perdoe o clichê) inebriante.

Piqueniques: num dia bonito passe num supermercado ou, melhor ainda, numa rua de mercado (como a rue Mouffetard ou a rue Montorgueil), compre coisas gostosas e um bom vinho, tome o rumo do Canal St.-Martin ou do Jardim de Luxembourg e junte-se aos colegas pique-niqueurs.

Como escolher seu restaurante

Algumas semanas antes de viajar, dê uma sapeada no Le Fooding, o guia de restaurantes mais antenado da França (eu descobri nos primórdios da internet, mas a opinião que conta é a do grande Luiz Horta, que recomenda sempre). Confira as novidades (from the hot oven na versão inglesa ou tout nouveau tout chaud na versão francesa); faça também uma visita virtual aos restaurantes perto de onde você vai ficar (pesquise por rua ou estação de metrô).

O Conexão Paris tem a coleção mais extensa de resenhas em português de restaurantes em Paris, já convenientemente separados por arrondissement e por estilo. E minha food writer favorita, a Constance Escobar, traz no seu Pra quem quiser me visitar uma seleção de endereços imperdíveis, descritos com rigor, delicadeza e charme (sim, ela consegue juntar os três no mesmo texto).

Pesquisou? Então faça as reservas para as refeições-chave. Mas deixe espaço na sua agenda para descobertas. Você vai passar por lugarezinhos onde vai ter vontade de voltar para almoçar o jantar. Veja se está no Le Fooding, e o que dizem dele no Yelp (melhor do que TripAdvisor para restaurantes). Algumas das melhores lembranças de viagem são os lugares que a gente descobre por acaso -- ou que esteja ligado a um episódio ocorrido durante a viagem (e não durante o planejamento da viagem).

Se der chabu e você ficar sem lugar para jantar, já sabe: é só enfrentar a fila da brasserie ou do vietnamita.

Algumas indicações pessoais

Brasseries

Eu sempre bato ponto n'Au Pied de Cochon, pelo ambiente superkitsch e sobretudo pela perfeita sopa de cebola -- uma tradição desde o tempo em que o mercado (Les Halles, o Ceasa de Paris) funcionava em frente (mudou-se há decadas). Coberta com uma fatia de pão e gratinada, e a ridículos 8,50 euros, é a refeição light mais em conta da cidade (6 rue Coquillère, Paris 1, tel. 01-40-13-77-00; aberto 24 horas; metrô Les Halles).

Outro lugar animado para chegar às 22h45 e não encontrar a cozinha fechada é a tradicional La Coupole, em Montparnasse, que preserva a decoração déco (desculpe). Mande baixar o plateaux de fruits de mer (102 bd du Montparnasse, Paris 14, tel. 01-43-20-14-20; aberto das 8h30 à meia-noite -- domingo e 2ª, até 23h; metrô Vavin).

Um restaurante das antigas com tamanho de brasserie e que vale a visita pela decoração é Le Train Bleu, que fica na Gare de Lyon e é todo original art-nouveau, restaurado em 2014. Os preços são bem salgados para o que é servido; melhor passar no bar para tomar um drink e beber (pardon) o ambiente, ou ir cedo tomar café da manhã (Gare de Lyon, Paris 12, tel. 01-43-43-09-06; almoço das 11h30 às 14h45, jantar das 19h às 23h; bar aberto sem interrupção desde as 7h30; metrô Gare de Lyon).

Bistronomiques

No começo do milênio, conferi alguns dos pioneiros da bistronomie, que hoje já são clássicos e continuam com preços interessantes -- como o L'Épi Dupin, perto do Jardim de Luxembourg (11 rue Dupin, Paris 6, tel. 01-42-22-64-56; fecha sábado e domingo; metrô Sèvres-Babylone), o L'Avant-Goût no 13e. (26 rue Bobillot, Paris 13, tel. 01-53-80-24-00; fecha domingo; metrô Place d'Italie) e o La Régalade (49 av. Jean Moulin, tel. 01-45-45-68-58; fecha sábado, domingo e no almoço de 2ª; metrô Porte d'Orléans). Nesta década, adorei a proposta do Les Cocottes, de Christian Constant, perto da Torre Eiffel, onde as entradas frias são servidas em copos, e os pratos principais, em panelinhas. Bonus points: não fecha entre almoço e jantar e não aceita reservas (135 rue Saint-Dominique, Paris 7; abre todos os dias das 12h às 23h sem interrupção; metrô École Militaire).

Étnicos e econômicos

Sempre volto ao Le Cambodge, na região do Canal St.-Martin. A fila costuma ser tão grande que o host anota seu telefone para mandar SMS quando chega a sua vez (10 av. Richerand, Paris 10, tel. 01-44-84-37-70; fecha domingo; metrô Goncourt). Fui pela primeira vez ao marroquino Chez Omar quando estava super na moda; hoje já não é mais in, mas continua um ótimo lugar para provar seu primeiro couscous marroquino completo (47 rue de Bretagne, Paris 3, tel. 01-42-72-36-26; fecha no almoço de domingo; metrô Arts et Métiers). No antro de asiáticos de Belleville, o Dong Huong é um vietnamita super-autêntico -- mas não repare na decoração, que é feiosa (14 rue Louis Bonnet, Paris 11, tel. 01-43-57-42-81; fecha terça; metrô Belleville). O mundo inteiro vai te dar essa dica, e vale mesmo ir atrás: o faláfel do L'As du Fallafel, no Marais, é o que há (34 rue des Rosiers, Paris 3, tel. 01-48-87-63-60; abre de domingo a quinta das 12h às 23h; fecha das 16h de sexta às 18h30 de sábado; metrô Saint-Paul).

No centrão de Paris, a pequena rue Tiquetonne, entre Montorgueil e St.-Denis, é uma boa fonte de restaurantes bonzinhos e em conta, sem necessidade imperativa de reserva (Paris 2; metrô Etienne-Marcel). Mais pitoresca, a região da Butte aux Cailles concentra restaurantes freqüentados por alternativos e intelectuais durangos; reserve seu lugar nas mesas coletivas do Le Temps des Cerises (18 rue de la Butte aux Cailles, Paris 13, tel. 01-45-89-69-48; fecha domingo; metrô Corvisart).

Restaurantes de museu

Todo museu vai ter um café ou um restaurante que virão a calhar durante os seus passeios. Recomendo particularmente dois. Um, pela vista: o Le Georges, no Centro Pompidou (19 rue Beaubourg, Paris 4, tel. 01-44-78-47-99; fecha terça; metrô Rambuteau). E outro, pela grandiosidade do ambiente: o Minipalais, no Grand Palais (av. Winston Churchill, Paris 8, tel. 01-42-56-42-42; abre diariamente; metrô Invalides).

6 comentários

Beth Vasconcellos

Olá
De todos os restaurantes citados sou por vc gosto mesmo é do Mini Palais!
Mas a cafonice do "Au Pied de Cochon"é deliciosa...
Um grande abraço!

Tania
TaniaPermalinkResponder

Quantos lugares ainda para visitar... Amei o La Coupole. Outro que gostei muito foi o Le Jules Verne, o menu de almoço não esfola e a vista é demais!

Jamile Dertkigil

Maravilhoso seu trabalho detalhado neste blog. tinha lido tanta coisa , mas aqui achei o que procurava. Meu marido por um problema físico não poderá andar tanto assim. Mas tudo no final acaba bem. Adorei.

Otávio F.
Otávio F.PermalinkResponder

Oi, Ricardo, se eu puder fazer um adendo: pela estação Les Halles/Chatelêt também se chega ao Beaubourg e tem mais linhas que levam até ela (mas se caminha uns 5 minutos!). O Rambuteau é ao lado, mas só uma linha passa por lá (a 11).

Rodrigo
RodrigoPermalinkResponder

Em maio do ano passado, aproveitei as formules da Printemps, e me surpreendi muito. O restaurante que fica na cobertura da loja feminina é lindo, não é nem um pouco exorbitante em preços (até por isso era bem cheio) e tinha menu com principal + sobremesa a preço justo, na casa dos 20 euros. Fora que eram pratos mais refinados, comi massa com camarões em um dia, e sobremesas como crème brulée de chá verde e tiramisù de frutas vermelhas... Vale muito a pena!

Celso Henrique Pires

No petit palais também tem um café que abre para uma área do jardim interno do palácio que é simplesmente deslumbrante. As mesas externas são as mais concorridas.

Atenção: Os comentários são moderados. Relatos e opiniões serão publicados. Perguntas serão selecionadas para publicação e resposta. Entenda os critérios clicando aqui.
Bóia offline! Vamos continuar aprovando comentários, mas a Bóia só volta a responder perguntas que forem feitas depois de 10 de abril de 2017. Obrigado pela compreensão.
Cancelar