Dans mon île

Ricardo Freire
por Ricardo Freire

ilestouis
Île Saint-Louis, Paris

A ilha mais linda do planeta não tem praia, não tem coqueiro, não tem montanha nem atrativo natural de nenhuma espécie. Até pouco tempo atrás (coisa de uns 200 anos) ela não passava de um pântano e era conhecida como Ilha das Vacas. Foi então que a nobreza da época resolveu encher a ilha de predinhos, todos bonitos mas nenhum particularmente memorável, que hoje abrigam, ao rés-do-chão (é como os franceses e os lusitanos chamam o andar térreo), lojas interessantes mas nenhuma assim terrivelmente famosa, restaurantes simpáticos mas em sua maioria desconhecidos, e hotéis bacaninhas mas nenhum de primeiríssima categoria.

Como se vê, a ilha mais linda do planeta tem o bom-gosto de ser também a ilha mais discreta do planeta -- o que com certeza deve ser o segredo do seu charme. Calma, recatada, introspectiva, a île Saint-Louis passa desapercebida do grosso (em todos os sentidos) dos visitantes. Mas quem anda meia horinha que seja pelas suas oito ruas e quatro quais não tem como discordar: é a ilha mais linda do planeta.

O que faz da île Saint-Louis um lugar especial é que, em primeiro lugar, trata-se de uma ilha cercada de Paris por todos os lados. Com suas ruelinhas, predinhos, restaurantezinhos, lojinhas e hoteizinhos, a île Saint-Louis é assim um bibelozinho de Paris. Só não se pode dizer que é uma miniatura de Paris porque lhe falta algum monumento -- um monumentozinho que fosse. Mas não seja por isso: os cafés do quai d'Orléans oferecem belíssimas vistas da catedral de Notre-Dame.

Sem estação própria de metrô nem lugar para estacionamento de ônibus, a île Saint-Louis conseguiu se manter a salvo do turismo predatório. Aliás, a única evidência de que se trata de um lugar turístico é o fato de você ouvir italiano e holandês e alemão e espanhol na rua o tempo todo.

Isso porque as lojas se dão ao respeito de não vender absolutamente nada que tenha "Paris" escrito -- apesar de estarmos a apenas uma ponte de distância de Notre-Dame, que é notoriamente um dos maiores centros mundiais de tráfico de souvenirs.

Eles são finos a ponto de manter um açouguezinho, uma merceariazinha e um supermercadinho na rua principal, só para a gente acreditar que a île Saint-Louis é de verdade, e não cenário. Hoje de manhã eu passei por duas senhoras que se cumprimentaram efusivamente dos dois lados da calçada -- "bonjour, madame!!!" -- como se fossem vizinhas! Só podem ser figurantes. Pensam que vão me enganar, é?

O footing acontece na rue Saint-Louis-en-l'île, que corta a ilha longitudinalmente, feito uma banana para fazer banana split. É aqui que ficam os hotéis, as lojinhas, e o único restaurante metido da ilha, o l'Orangerie.

Ao longo da rua, várias portinhas vendem sorvete de casquinha da casa Berthillon, tido e havido como o melhor de Paris (eu peço sempre "chocolat et chocolat blanc, s'il vous plaît"). A própria Maison Berthillon fica na rua, passando a esquina da rue des Deux-Ponts, mas sua decoração é tão sem-graça que é melhor entrar numa das filas em frente às portinhas e comer na calçada mesmo. Existem vários restaurantezinhos charmosos com mesas à luz de velas que você pode escolher de tarde e reservar para de noite.

E se passear na île Saint-Louis já é bárbaro, se hospedar aqui é o maior presente que um viajante a Paris pode se dar.

A 10 minutos a pé do bairro mais interessante da Rive Droite, o Marais, e a 20 do pedaço mais bacana da Rive Gauche, Saint-Germain-des-Prés, a île Saint-Louis é o centro geográfico perfeito para você se dedicar ao mais parisiense dos passatempos -- flâner, verbo que a língua portuguesa teve a elegância de incorporar como "flanar".

Você só precisa entrar no metrô para peruar em bairros com dois dígitos no arrondissement. Táxi, então, só na hora de voltar para o aeroporto. O que me faz lembrar de o meu táxi vai passar daqui a 4 horas e meia, e eu ainda tenho que dormir.

Quel dommage. Porque só existe uma coisa pior do que deixar Paris: deixar a île Saint-Louis.

(Originalmente escrito para o viajenaviagem.com.br em 1998, num hotel da île St.-Louis, em Paris. Fazia parte do projeto "Postais por escrito".)

90 comentários

Dionísio (www.espacovital.com.br)

RIQ, obrigado pelas dicas. A CVC permite adicinar diárias avulsas. A oferta mesmo está na passagem aérea pela Iberia, que, a partir de Porto Alegre, sai por pouco mais de 700 dólares, quando em média o ticket sai por 1.000 dólares.

Descobri que eles têm também o Mercure Vaugirard, que é melhor que esses outros hotéis. No Mercure, o pacote 7 noites sairia 2.900 dólares por pessoa a partir de POA, já com taxas.

Ricardo Freire

Só pra você saber, Dionísio, a Iberia está oferecendo essas tarifas por meio de inúmeras operadoras. Provavelente os agentes de viagem também tem acesso a ela.

Dionísio (www.espacovital.com.br)

Interessante esta dica!

maiana
maianaPermalinkResponder

Ricardo, vc sabe dizer se Henri salvador se inspirou nessa ilha p escrever Dans mon ile., ou foi em algum outro lugar?Obrigada. Maiana

Ricardo Freire

Foi numa ilha tropical das Antilhas francesas, Maiana.

Sandra Abrahim

Ricardo
gostaria de alugar um apart em paris , mas não gostaria de me descapitalizar logo na chegada . voce sabe me informar se existe a possibilidade de pagamento no cartão de credito na chegada. acho que o proprietario so aceita em dinheiro mesmo é ??
voce tem ideias otimas e orienta da melhor forma do que é Paris e como se deve aproveita-la !!!!!Parabens

Ricardo Freire

Acho bem difícil achar alguém que aceite cartão, Sandra. Receber em dinheiro vivo, longe dos olhos da receita, é um dos atrativos de alugar apartamento por temporada em qualquer lugar do mundo. O pessoal só precisa declarar o sinal.

Tente esta agência aqui, talvez eles aceitem tudo no cartão: http://www.rentparis.com .

Se quiser continuar esse assunto, por favor use os posts de aluguel de apartamento de temporada:
https://www.viajenaviagem.com/2009/03/como-alugar-apartamentos-de-temporada-no-exterior-parte-1/

Marisa
MarisaPermalinkResponder

Ricardo,

Você conhece o Hotel Agora em Saint Germain?

A Bóia
A BóiaPermalinkResponder

Olá, Marisa! O Comandante não conhece. Dá uma checada no que dizem no TripAdvisor.com!

Tita
TitaPermalinkResponder

Marisa, o Agora Saint Germain é muito bem recomendado por brasileiros. Conheço muita gente que ficou la e gostou.

Cintia F.
Cintia F.PermalinkResponder

Marisa, me hospedei no Agora por 13 noites, entre o último Natal e o Reveillon.
Gostei muito! A localização é muito boa e a tarifa que eu paguei foi uma pechincha...
O quarto é pequeno e o banheiro é ótimo. Os equipamentos são novos. Peça um quarto de frente para a rua.
A Lina do blog Conexão Paris falou do Abbatial Saint Germain, que é vizinho e do mesmo dono do Agora, essa semana.

Marisa
MarisaPermalinkResponder

Obrigada!

Marisa
MarisaPermalinkResponder

Reservei para abril, obrigada pelas dicas, Cintia e Tita.

Flavia (@ladyrasta)

Não conhecia esse post. Mon Dieu, que lindo!!

Susana
SusanaPermalinkResponder

Olá Riq!
Já tinha lido o livro Postais por escrito... lendo este post agora me deu uma saudade de Paris... é muito lindo, concordo com tudo..
És meu "guru" de viagens, adoro tuas dicas e Paris também é prá mim um lugar que preciso passar toda vez que vou à Europa!
Abraço!
Susana

Paula
PaulaPermalinkResponder

Preciso de ajuda para escolher entre o hotel Pas de Calais e Abbatial St Germain, os dois sao bem localizados, mas as opinioes do trip advisor sao contraditorias e as fotos dos hospedes muito diferentes do site....alguem ja ficou em algm dos dois? Obrigada paula

A Bóia
A BóiaPermalinkResponder

Olá, Paula! Leia relatos de leitores do site em Paris neste post:
https://www.viajenaviagem.com/2011/02/hoteis-em-paris-os-depoimentos-dos-leitores/

Tenha em mente que hotéis em Paris normalmente deixam a desejar tanto no quesito espaço quanto no quesito conforto, e que sobretudo hóspedes americanos não se conformam em não encontrar num hotel o básico a que estão acostumados nas redes mais simples. Siga a sua intuição e vá sem grandes expectativas, que você tem menos chance de se decepcionar.

Paula
PaulaPermalinkResponder

O site de reservas agouda é confiavel? Nunca havia ouvido falar e achei o hotel que eu procurava nele.

Obrigada
Paula

val
valPermalinkResponder

Ágoda? já usei várias vezes, é confiável sim!

paulab
paulabPermalinkResponder

Obrigada!!!

Thiago Augusto

Li esse post no dia de sua publicação. Estava me preparando para conhecer Paris em outubro daquele ano. O hotel ja estava pago e não tive como trocar por outro nessa ilha.
2013, desejo realizado: acabo de acordar na minha nova temporada em Paris, num apartamento alugado aqui Île Sain Louis. Muito bom ...

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