Tecla SAP (minha crônica no Divirta-se do Estadão)

Ricardo Freire
por Ricardo Freire

Ilustração: Daniel Kondo

Ilustração | Daniel Kondo

Todo mundo tem um parente (no mínimo, um amigo) que, quando vai ao exterior, consegue se comunicar com naturalidade com falantes de qualquer idioma, usando o velho e bom português – tendo apenas o cuidado de falar ALTO e PAU-SA-DA-MEN-TE. Pessoas assim nascem equipadas com um aplicativo natural, uma espécie de Google Translator ativado pelo volume da voz. Todas costumam voltar vivas das viagens, então deve funcionar.


Eu nem preciso sair do Brasil para que isso aconteça comigo. Não que eu domine a técnica. Eu entro no papel de alvo – sempre do outro lado da interlocução.

Os cenários mais recorrentes desses episódios são as atrações turísticas. Quando chega a minha vez, solto um “Quanto é?”, e a resposta vem pronunciada à custa de intensa ginástica facial: “CIN-CO RE-AIS”. Passo pela entrada, pergunto o de praxe: “Pode fotografar?”. Sou então informado: “PÓ-DE, SEEEM FLÉÉÉÉ-CHI!”.

Minha gestallt de mochileiro velho alemão e meu sotaque indefinido levam atendentes e ambulantes a crer que eu decorei com muito esforço algumas frases em português, e não estou devidamente aparelhado para entender a resposta. Deve acontecer com freqüência com mochileiros velhos alemães autênticos. Viajantes bem-informados têm consciência de que estão vindo para o único lugar do mundo onde os vendedores de souvenirs não sabem dar preço em inglês. Os mais espertos fazem aulas com brazucas antes de viajar.

Muitas vezes travo longos diálogos sem que meu interlocutor se dê conta de que está falando com um súdito de Roberto Carlos que nem ele. O causo mais engraçado me aconteceu há uns dez anos, em Pernambuco.

Peguei um táxi em Olinda para voltar ao Recife. Eu sabia que o trânsito da praia de Boa Viagem tinha acabado de mudar, e imaginava que um taxista olindense pudesse não estar a par. Do banco de trás, fui dando as instruções: “a Conselheiro mudou de mão, então o senhor vá pela Domingos Ferreira e vire à altura do Segundo Jardim”.

O taxista ouviu, aquiesceu, ouviu mais um pouco, seguiu em frente. Lá pelas tantas, não se agüentou. Virou-se para trás e perguntou:

- Mas o senhor fala português mesmo?

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32 comentários

Priscila Ribas

Muito bom! kkkk!! É assim mesmo, se você tem o esteriótipo uma pouco mais europeu, todos pensam que você é Gringo!! Parabéns Capitão mais uma crônica fantástica!!

Rosa Bsb
Rosa BsbPermalinkResponder

Quem manda ser tipo net, quer dizer, tipo brasileiro...

Liliana
LilianaPermalinkResponder

Muito boa! E os alemães mochileiros, não acham que voce é um deles? Fora do Brasil, os indianos tem certeza que sou uma conterrânea, a ponto de testa franzida quando digo que sou brasileira. Essa nossa mistura linda que nós brasileiros somos dá nisso!

Liliana
LilianaPermalinkResponder

*essa nossa mistura que nós somos foi dureza. Escrever sem revisar, a gente se vê por aqui.

Lili-CE
Lili-CEPermalinkResponder

HAHAHAHAHAHA! Em Porto Seguro, após uma semana de sol, eu estava preta e o Filgueiras continuava translúcido, destoando do resto inteiro da fauna costeira, dentre tantos ambulantes que faziam mímica pra vender trecos para ele, um disse pausadamente e alto: HA-BLAS POR-TU-GUÊS?

Ana
AnaPermalinkResponder

História da minha vida. Sempre assustam comigo quando eu respondo em português... Adotei até o codinome de Mildred, nessas situações! Já que é pra parecer velhinha inglesa, que seja por inteiro!

Michele - PlanejandoaViagem

Muito boa essa crônica!! Esse tipo de experiência sempre me rende muitas risadas. Não por minha causa mas por causa do meu namorado que segundo nossas amigas italianas tem cara de "nord europeu". Então já viu, ele jurava que na Italia iriam parar com isso mas a coisa continuou. Tadinho dele, um eterno turista...risos.

Próxima Trip - Erika

Nossa ri muito! Excelente texto! Eu não temho cara de gringa, mas meu marido tem. Toda vez q conversamos com alguem no exterior eles se assustam ao saber q somos do Brasil. No Chile acharam q meu marido era italiano, e no aeroporto em Boston/EUA, uma senhora q embarcaria no mesmo voo com a gente perguntou se ele era da Nova Zelândia(oi?)

No fim essaa histórias são sempre e ao mesmo tempo motivo para a gente continuar viajando e lembrançaa boas das viagens que passaram smile

Carla Baiana
Carla BaianaPermalinkResponder

Eu morri de rir com essa.
A uns anos atras, esperando o ferry boat, meu marido (americano) foi pedir um suco de laranja na quitandinha. Ele disse, em bom portugues: sem acucar, por favor. E a mocinha olhou pra mim e perguntou o que ele havia dito. Eu repeti: sem acucar, por favor. Ela disse: ah, ta certo. Ele nao fala portugues, ne?
Que que a pessoa vai dizer numa hora dessas? Nada, ne? Pagamos e fomos embora. Ate hoje eu nao entendi o que ela nao entendeu.

ThiagoS
ThiagoSPermalinkResponder

Em Bs As um vendedor ambulante começou uma conversa em italiano comigo, achando que eu tb era. Fato que se repetiu num cruzeiro pelo caribe qdo um outro hospede tb me confundiu. Meus ascendentes são do norte da europa e do Libano..

Wander
WanderPermalinkResponder

em Salvador, perto do Mercado Central, uma baiana se dirigiu a mim com os dedos juntos num movimento de levar algo a boca em vai e vem dizia CO-MI-DA, CO-MI-DA, ao que respondi : "O-BRI-GA-DO : ainda não estou com FO-ME." Ela ficou estatelada com os olhos abertos parecendo que viu um ET.
em Fortaleza, no calçadão fui abordado por uma mulher com uma criança no colo, pedindo dinheiro ; fiz a besteira de responder : "I don't have any money". A mulher ficou histerica, pulando e vindo atraz de mim gritando : "MILK, MILK", e não parou de me seguir até eu responder :"desculpe, mas não tenho dinheiro". Ela tambem ficou estatelada com olhos abertos parecendo que viu um ET.

Ronaldo Giusti

Já aconteceu comigo em Jeri, de perguntarem se eu falava português e, mais engraçado ainda, em Lisboa, quando um taxista cismou que a gente era um casal americano e só falava em inglês conosco, mesmo a gente insistindo em falar português! E nem temos o estereótipo americano...

Amaro - Recife

Um amigo utilizou a técnica do FALAR ALTO E PAUSADAMENTE com um atendente de uma loja no Paraguai que sapecou, em alto e bom TOM:
Hablo portugues y no soy sordo!!!

Candida Silva
Candida SilvaPermalinkResponder

Sou paraense, em São Paulo, por causa do sotaque, acham que eu sou carioca. Na Espanha, me perguntaram se eu era italiana e na Itália, se eu era espanhola... Enfim, tenho muitas nacionalidades!

Camila Torres - Colecionando Ímãs

Ótimo texto! Pensando bem, vc realmente tem cara de gringo! smile

Maryanne
MaryannePermalinkResponder

Dei muita risada, principalmente pq ja vi muito brasileiro falando portugues bem alto, achando que assim os americanos entendem. É muito engraçado.

Philipp
PhilippPermalinkResponder

Eu trabalho muito, mas muito proximo da Apple Store da 5th Ave em NYC. Ja vi varias vezes brasileiros falando aqui bem alto: "TRES
AI-PEH-DIS, POR-FAVOR" e os funcionarios ficarem perdidos, primeiro por estarem falando um idioma que nao entendem e tambem pela pronucia da bugiganga, hahaha.

LEANDRO
LEANDROPermalinkResponder

Sou um baiano branco. Trabalhei um tempo num escritório próximo ao Pelourinho e almoçava sempre no bairro histórico. Agora pense o que é passar pela mesma pessoa quase todo dia e ser abordado com uma tentativa de espanhol: "hola amigo, un regalo".
No começo eu até me divertia. Dizia apenas, "não quero fita do Bonfim, obrigado". O tempo foi passando, um, dois, três meses. O sujeito, chato e grudento, teimava em não me reconhecer. A paciência foi esgotando, até que larguei um baianíssimo "que p****, todo dia é isso, se saia!"
Ele não incomodou mais.

Elisa Araujo
Elisa AraujoPermalinkResponder

Tenho um conhecido que gostava de receber estrangeiros em casa (amigos de amigos...), mas não falava idiomas. Comunicava-se assim como descreve o Riq. Até um dia receber um cara da Alemanha que não aguentava mais ouvir o dono da casa falando português MUI-TO BE-EM EX-PLI-CA-DO e AL-TO. Tascou um "Felipe, eu não sou surda, eu sou alemão!!!" Atenção para o "surdA" grin

yara xavier
yara xavierPermalinkResponder

Comigo sempre acontece o contrário. Em qualquer lugar que eu vá sempre me reconhecem como brasileira. Não sou bunduda, tenho os cabelos curtos, sou bem magrela, não falo alto, enfim, nenhum esteriótipo. Mas, até na Turquia os vendedores (sempre eles, claro) se dirigiam a mim em uma tentativa de português. Nunca entendi isso.

Georgia
GeorgiaPermalinkResponder

Falta um botão "curtir" no texto e nas respostas. FI-CA-A-DI-CA!!!!!!

Rosa Bsb
Rosa BsbPermalinkResponder

O importante é a comunicação. Com um pouco (ou muito mesmo) de boa vontade, ninguém fica com fome, sede, deixa de visitar os lugares. E comprar então? Mais importante que a pronuncia é ter o dinheiro para pagar. E, pelo que o Governo anda divulgando, o brasileiro está gastando no exterior com vontade.

Thyago Portela

kkkkkkk bolando de rir e lembrando do tio de um amigo que só conseguia falar "beer" em Orlando, mas sempre voltava com as sacolas cheias de compras dos outlets.

Uma vez fui ver como ele fazia para pagar: mostrava 02 cartões ao vendedor e, falando alto, pausado e com gestos, mandava passar a metade do valor em um cartão e a outra metade no outro.

Segundo ele, em Orlando, a linguagem oficial é a do cartão kkkkkk

Oscar | MauOscar.com

Muito Bom!!!

Graca Craidy
Graca CraidyPermalinkResponder

Riti querido,
q otima historia! Lembrei duma cena hilaria, eu e minha amiga Janete em Bali, numa daquelas lojinhas de Kuta. Ela e o vendedor conversavam pela calculadora. Ele digitava um numero e mostrava pra ela. Ela fazia que nao com a cabeca e digitava outro. Ele dava tapa na testas gritando " bankrupt! bancrupt!" ...e digitava outro numero. E assim ia. Até eles se acertarem e fecharem negocio.
smile
beijos, SAUDADES! ( este desenho teu la em cima tá uma delicia!)

Julio Corrêa
Julio CorrêaPermalinkResponder

KKKKKK. Isso, às vezes, tb acontece comigo. Imagine, um carioca da gema! O pior é quando as pessoas gritam, como se além de gringo, vc fosse surdo.
abraço

malena
malenaPermalinkResponder

Esse texto está demais!!!
Comigo aconceteu o que poderíamos chamar de contrário. Nos meus 16 anos, me esforçando para praticar o inglês e a falta de timidez nos EUA, faço uma pergunta toda elaborada a um atendente, cheia dos "woulds" e "coulds". Puxando meu tapete, ele responde: "pode falar em português, eu sou brasileiro...".

Cristina
CristinaPermalinkResponder

Muito bom. Eu que estou na fase bronzeada após 1 carnaval e 2 finais de semana tomando sol no Leme ou na Serra, caminhando ao lado da minha irmã, que é branquinha, vi um entregador daqueles jornais de sindicato no Centro do Rio perguntar para ela - "Fala Português?" Em viagens pelo mundo já passei por espanhola, italiana (o que faz sentido pela ascendência como alguns aqui citaram), egípcia (!) e até britânica (inglês com sotaque da Rainha), mas a gringa era ela!

Rosa
RosaPermalinkResponder

A crônica é tão boa que gerou comentários tão bons quanto!! Alegrou o meu domingo!!

Silvia Andrade

Sei não, dessa história complexa de falas, idiomas e sotaques me lembrei das experiências de Cartagena das Indias nesta semana do Carnaval. Acho que a Colombia está recebendo poucos brasileiros, pois nesta viagem, percebi que o meu espanhol esforçado rendia muitas conversas, até que vinha a pergunta fatídica "Vc é do Canadá?"... Aconteceu várias vezes e só cheguei a uma conclusão - ou meu espanhol necessita de reparos ou os colombianos precisam (e merecem) receber mais brasileiros. O sorriso a dizer que era do Brasil era maravilhoso.

petter
petterPermalinkResponder

Engraçado... Isso já aconteceu comigo... Que bom ser brasileiro e ter a cara do mundo todo!!!

Rina
RinaPermalinkResponder

Num trem indo de Praga para Viena, meu marido foi dar uma volta e eu fiquei de frente para uma senhora. Dai ela puxou conversa e eu tentei meu ingles medio, mas ela nao compreendia, entao ela falava em tcheco e eu em portugues e o papo foi animado com o uso de lingua de sinais e muita entonacao e risos. Ao retornar meu marido nao acreditava no que estava acontecendo. E ainda traduzi para ele que ela estava indo a Viena visitar os netos e etc. Foi muito bom!! Aconteceu em 1997 e a gente sempre lembra e pensa que a melhor forma de comunicacao e a boa vontade e o cartao de credito tb, e claro!

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